|Zeitgeist| like a fucking stoned






Terça-feira, Junho 30, 2009

"A herança de Michael Jackson é a música pop de hoje"


Marcelo Negromonte, editor de Entretenimento do UOL, comenta a importância de Michael Jackson para a música e para a cultura pop. O cantor morreu em 25 de junho de 2009, aos 50 anos de idade.

Neo Zeitgeist





Domingo, Junho 28, 2009

Agora estamos em um mundo onde não é mais possível haver Michael Jackson.

Neo Zeitgeist





Quinta-feira, Janeiro 01, 2009

2009

Pela segundo ano consecutivo, eu passo o réveillon no alto. Do 13º andar ao 5º, afastados por mil quilômetros. No horizonte, av. Paulista a uma distância razoável, depois Lago Norte, muito mais visível. Tenho a dizer que esses fogos precisam se reiventar. Aqueles coloridos que explodem e se espalham em forma de "oh!" já tem uns dez anos.

Isso só quer dizer que me isolei deliberadamente desta vez. É inédito isso. Preisava começar o ano com algo nunca dantes realizado (adoro dantes).

E é justo agora que o trema passa a não existir. Tipo, oi, o trema morreu e tá todo mundo comemorando neste exato momento? Insensíveis!

Mas tem um lado bom. Sequestro não tem mais trema. Isso pode ser usado na negociação a favor de sequestrado, porque já tirarm isso dele; o sequestrador não pode alegar igualdade de direito, nesse caso, porque ele é um palhaço e não pode alegar nada.

De qualquer modo, Björk e Bündchen permanecem. É o mínimo de dignidade que o trema merece.

Agradeço a presença do trema durante todos esses anos, sempre no topo e sempre em dobro. Um beïjo.

Feliz dois mil e love (até agora não sei se esse 'love' funiona)

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Setembro 10, 2008

The Best of 2000's

Sem a lista abaixo, os anos 2000 não teriam existido:

"Daft Punk Is Playing at My House" - LCD Soundsystem
"Crazy" - Gnarls Barkley
"Umbrella" - Rihanna
"Hung Up" - Madonna
"Seven Nation Army" - White Stripes
"Young Folks" - Peter, Bjorn and John
"One More Time" - Daft Punk
"Clocks" - Coldplay
"We Are from Barcelona" - I Am from Barcelona
"Bucky Done Gun" - M.I.A
"Maps" - Yeah Yeah Yeahs
"House of Jealous Lovers" - The Rapture
"Knives Out" - Radiohead
"Vertigo" - U2
"Rehab" - Amy Winehouse
"Mercy" - Duffy
"Over and Over" - Hot Chip
"Take me Out" - Franz Ferdinand
"Dare" - Gorillaz
"Frank Sinatra" - Miss Kittin & The Hacker
"Blind" - Hercules & Love Affair
"Comfortably Numb" - Scissors Sisters
"Grace Kelly" - Mika
"Crazy in Love" - Beyoncé
"Last Nite" - Strokes
"Hey Ya" - OutKast
"I Bet You Look Good on the Dancefloor" - Arctic Monkeys

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Segunda-feira, Agosto 11, 2008

TIRO E LUTA


O que eu mais gostei até agora d'Os Jogos, e isso mostra muito do espírito olímpico tão idealizado pelo barão Pierre de Courbertin, foi quando as atletas da Rússia e da Geórgia se uniram no pódio e deram uma lição ao mundo.

O esporte: TIRO. hahahahahaha.

O texto sobre isso é pequeno, mas ótimo.
Vamos lá?

A disputa no tiro não deve ser a única que vai envolver os dois países, que disputam a região da Ossétia do Sul.
Definitivamente não, tem a disputa de canhões, artilharia aérea, saques e muito mais!

A georgiana já cumprimentara a russa de forma efusiva após o último tiro.
Não queria ser eu a pessoa que poderia levar algum constrangimento internacional, mas deve ter sido por causa de algum abraço efusivo assim que os tiros estão comendo solto no Cáucaso.

Na luta, os dois vizinhos estão entre as maiores forças e candidatas ao pódio.
Bom, alguém duvida?

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Gay transfere para Bolt a pressão na prova dos 100 m rasos.

Tenho a dizer que conheço muita gente boa que já transferiu pressão do tipo até mesmo em corridas más rapidas.

Agora chamam isso de Os Jogos. Falou.

Aliás, sabe como Tyson Gay se chamaria no Brasil? Maguila Bicha.

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Sábado, Agosto 09, 2008

"Parece que esse cara é daqueles que saem de casa e vão tentar impressionar o mundo com seus conhecimentos musicais", pensei ao conversar com um sujeito que falava de alguns acts com intimidade e segurança. A intimidade foi adquirida talvez no dia anterior com alguns cliques na internet, e a segurança advinha dessa facilidade em se tornar falsamente íntimo de algo de que nunca nem ouvira falar poucas horas antes.

Eu tenho um prazer genuíno em conversar com pessoas assim. Porque desestruturá-las é a minha diversão. "Sei, que legal. Você conhece mesmo essa banda, né?". Ah, não gosta tanto assim dela, era o balanço que ele tentava me transmitir baseado em seu amplo conhecimento do assunto.

É preciso boa dose de nonchalance para tentar convencer, de outro modo fica evidente o seu esforço em mostrar alguma superioridade intelectual, e não é legal se exibir de modo tão óbvio. Então de vez em quando ele falava só o primeiro nome dos músicos --ele realmente estava me entretendo.

Os melhores momentos são quando surgem exemplos para darem uma idéia do que ele está falando, preocupação didática bem-vinda. "É meio White Williams, meio Liquid Liquid, sabe?", "É uma mistura de Calvin Harris e Beatles pré-Yoko". O cara era bom mesmo, porque ele fazia tudo direitinho: citava gente com um (ou nenhum) álbum lançado como referência e soltava ora nomes antigos e undergrounds, ora bastante reconhecíveis para trazer o interlocutor de volta à conversa --nesse último caso, nota-se um sentimento de piedade em relação à ignorância alheia. Ele era mesmo muito bom.

"O show do Hercules and Love Affair", disse ele, "é um lixo, uma bosta". Ele havia gostado muito do disco, em sintonia com o grupo no qual ele está/quer ser inserido (não é preciso muito talento para identificar quais bandas você deve dizer que gosta), mas se "decepcionou" com o show que viu na Espanha (outro país, festival legal: tudo credencial positiva para ele).

Como um mensageiro que chega de terras distantes para anunciar as boas novas, esse cara falava como se fosse testemunha única de um evento que não poderia ser compartilhado por mim e pelas outras pessoas em volta porque não estávamos lá. Tinha razão. E isso lhe dava autoridade para ser peremptório.

"Ah, eu me diverti bastante no show deles", disse eu para uma inenarrável surpresa do cara. "Onde você viu?", me perguntou como um guarda pede os documentos. Então eu, que já estava me divertindo horrores, me preparei para a punch line e obviamente usei as mesmas armas que o cara havia usado até então para deixar tudo melhor ainda: pedantismo, demonstração tola de suposta superioridade, idéia de exclusividade e alguma indiferença.

"Em Londres. Foi o primeiro show deles na Inglaterra, uns dias antes desse festival aí, num buraco no Soho, muito legal, foi beeeem divertido, devia ter umas 200 pessoas, acho, sold out. Quer mais cerveja?".

Nesse ponto o cara passou a dizer que realmente o show que ele vira tinha sido péssimo, tão ruim que o tom era quase agressivo. Claro que a agressividade dele não era em relação à banda, mas a mim que havia direcionado os holofotes para longe do seu campo de atuação, meu objetivo incial.

"Falou, o prazer foi todo meu", me despedi.

Neo Zeitgeist




BEIJING, BEIJING, PAU, PAU

Por que tudo relacionado a esporte é cafona? A abertura das Olimpíadas, tradicionalmente um primor de breguice, foi um espetáculo extravagante e ostentatório típico da China.

Sem contar a precisão coreográfica dos atores, o que na China ganha contornos macabros: pela obsessão pela ordem no país e pela ditadura militar e seus soldados em sincronia.

Tudo brega e estranhamente organizado.

Neo Zeitgeist





Domingo, Julho 20, 2008

DUBROVNIK, MEU AMOR

Cerca de uma hora depois de decolar de Zagreb, eu estava diante de um cenário de uma beleza tão impactante que me fez chorar pequeno. Pequeno eu também me sentia diante daquele mar azul klein que ganhava matizes incríveis à medida que se aproximava do continente, formado por montanhas tão áridas quanto claras.

Aliás, eu tinha certeza de que as montanhas, ao se interromperem abruptamente na água, reverenciavam o mar. A terra, cinza claro, literalmente se curvava ao profundo azul; elas jamais poderiam conquistá-lo, apenas se resignar. No encontro dos dois, uma cor inédita para os meus olhos, uma felicidade incontida de estar confortavelmente pequeno diante do sublime.

Na verdade, aquelas rochas sem vida eram esmagadas pelos azuis do mar e do céu --se eram respeitosos para com o primeiro, pareciam desafiar o segundo com suas dobraduras em forma de lanças. A tensão que a natureza provoca entre alguns dos seus componentes parece destinada a causar a mais completa excitação nos homens, como se esse embate fosse um clímax de uma história da qual eu era só um figurante --e, naquele momento, sem fala.

Pelo litoral da Dalmácia, o avião me levava ao que me pareceu ser o paraíso. Quanto mais baixo ele voava, maior era o entusiasmo. Não apenas pelo cenário, mas por não fazer idéia aonde aquela máquina poderia pousar naquele terreno pontiagudo e disforme, onde a superfície mais plana visível era apenas o mar. Eis que a areonave da Croatian Airlines entra em uma montanha aberta especialmente para uma pista de pouso, e quase pedi para o piloto voltar e fazer tudo de novo.

Pisei na pista do aeroporto de Dubrovnik sem passar pelos assépticos fingers que ligam o avião à sala de desembarque. Eu estava aonde eu mais queria estar! Havia muito tempo que eu não sentira isso.

E por que eu queria estar lá? Por que não?, poderia ser uma resposta pedante e evasiva. Mas eu queria estar em Dubrovnik, porque desde sempre me parecia uma cidade única sob todos os aspectos. A Stari Grad (Cidade Velha), o centro, é murada diante do mar. Esse aspecto militar medieval me encantava. Já fui a cidades muradas ou que foram muradas, mas todas estavam bem dentro do continente. Dubrovnik, ao contrário, se fecha diante do Adriático, espremida entre o mar e a montanha, como uma ostra medrosa.

E então entendi que dentro dessa ostra está a tal "pérola do Adriático", branca, linda, brilhante. As pedras das ruelas estreitas, por onde não circulam carros, chegam a ofuscar de tão polidas. As das construções são mais foscas, mas igualmente claras, como se fossem mármore.

De cima, Dubrovnik é laranja, cor de açafrão. Se eu lhe perguntasse o que é vermelho por fora e claro por dentro, você teria duas opções: Dubrovnik e cheesecake. Os telhados, com suas telhas iguais, mas longe de serem monótonas, são as penas de uma mãe ganso a proteger os seus filhotes, tal a simetria das telhas e o pequeno caos formado pelas direções em que apontam. As telhas de laranja mais vivo são as recolocadas há menos de 20 anos, depois da guerra. As mais leitosas sobreviveram aos ataques.

Não se pode dizer que você entra em São Paulo, Londres ou Madri; você chega a esses lugares. Em Dubrovnik, você entra. Por um portão, o Pile, que dá na Placa, a rua principal que divide a Stari Grad mais ou menos no meio.

À esquerda, as ruas são escadas, com degraus altos, que se tornam cada vez mais íngremes à medida que se adentra. À direita, as ruas são planas até certo ponto; depois, mais escadas para o alto. E a muralha a conferir um aconchego esquisito dos limites de sua ação. E a montanha a sinalizar o limite de tudo. E o céu azul-marlboro azul, além.

Pra que mapa? Eu quero me perder em Dubrovnik! Quero conseguir me perder aqui. Sem malas, saio pela cidade. Eu estava em Dubrovnik. E estava num lugar que não existe. A sua existência é a medida da minha ausência na cidade. Então eu liguei para alguns amigos para que eles me vissem lá por uma webcam instalada ao lado da Torre do Relógio, na extremidade oposta ao portão que entrei.

Eu queria que todos eles estivessem lá. Não porque eu quisesse companhia, mas porque eles --e todo mundo de quem eu gosto-- também mereciam estar lá, sentir as pedras. Penso que Dubrovnik é o lugar ideal para morrer. É lá que eu quero ficar para sempre.

Ainda vivo e já tendo compartilhado um pouco de felicidade com os amigos por telefone, fui. E imaginava como seria morar ali, em meio a turistas, pedras e o mar exuberante. Como seria a rotina, acordar todos os dias, almoçar, trabalhar, dormir, se divertir, fazer sexo, estudar, ficar bêbado e ver o dia seguinte em Dubrovnik.

Fiz algumas dessas ações, a primeira delas, é claro, foi ficar bêbado. Sabia da existência de um bar localizado além das fronteiras da cidade, entre a muralha e o mar, sobre rochas. Achei-o por acaso, uma pequena entrada escura na parede e... uau!

No bar Buza tocava uma música que se chama de lounge e seria cafona em qualquer outra situação. Ali era incrível que simplesmente houvesse música. De frente para o bar, estava a ilha de Lokrum. Havia pequenos corrimões, como os de piscina, nas rochas que ajudavam os banhistas a regressar do mar. A visão do bar a partir do mar você não encontra em lugar nenhum. Especialmente ao entardecer. Foi meu pôr-do-sol diário em Dubrovnik.

Um pouco bêbado, tentava voltar ao hotel. Ou pelo menos chegar à Placa, para onde tudo converge, ainda que seja uma reta de uns 300 metros. Janelas verdes, pedras brancas, beges, cinzas, como de resto as roupas dos turistas --ainda vou descobrir por que os turistas europeus e norte-americanos usam cáqui em todas as peças de roupas; os asiáticos não poupam o preto pelo menos nos chapéus.

Andava sem pressa e sem rumo, seguindo sempre a direção contrária do que poderia ser um mínimo fluxo de pessoas, mesmo que fosse só uma. Não queria ir aonde alguém fosse, queria Dubrovnik só para mim. E consegui algumas vezes, como quando vi crianças brincando num "quadrado" sem saída ou quando encontrei uma velha louca com peruca loira pretensamente elegante a distribuir presunto a uma dezena de gatos sem que ninguém interferisse nem fotografasse porque não havia ninguém, só ela, sua loucura, os gatos, a vida e Dubrovnik. Eu, mais uma vez, não estava lá. Não havia como estar.

A irrealidade da cidade é opressora. Existe uma impossibilidade tão grande de Dubrovnik existir (pelas dezenas de ocupações e guerras desde o século 7° até a mais recente, a dos Bálcãs, que destruiu 2/3 da cidade e a deixou sitiada por um ano) que a minha própria existência era colocada em xeque constantemente. Eu não posso estar aqui. Assim como meu querido amigo não está mais aqui. Ou ele estava lá, como sempre, e talvez eu tenha ido encontrá-lo. Mas eu ainda não estava em Dubrovnik.

Acordava às 6h, antes de todos, menos das andorinhas, que são uma festa. Eu, que detesto passarinhos, lidava surpreendentemente bem com as andorinhas de Dubrovnik. Pela manhã, elas eram mais populosas que os seres humanos. Ainda estavam um tanto sonolentas, mas já demonstravam um entusiasmo invejável para enfrentar o dia que começava. Ao cair da tarde, por volta de umas 20h, as andorinhas ensinavam como se faz um quase literal happy hour. Elas estavam mais do que eufóricas, elas estavam alucinadas, todos os dias, como a se exibir sem pudores para homens, mulheres e crianças, esses bichos estranhos que não saem do chão. Mais um pouco de animação, e eu consideraria as andorinhas violentas.

É provável que elas estivessem tão enlouquecidas porque queriam nos prevenir para o porvir. O mundo vai virar de cabeça para baixo, pareciam dizer, preparem-se! Pois o céu, antes de a luz do sol sumir completamente, ficava azul da cor do mar, aquele azul-bic que se vê durante o dia. O contraste entre as cores claras e escuras por toda a parte devia ser um prato cheio para qualquer pintor.

Passeava pela cidade à noite, quando a grande maioria dos turistas já tinha ido embora (só há dois hotéis na Stari Grad, e eu fiquei em um deles; os turistas ficam em Lapad, fora das muralhas, ou os navios de cruzeiro os despejam lá durante o dia) e quando o chão da cidade é iluminado por postes fixados na parede. Precisava sentir alguma normalidade ali. Algo como me deparar com uma escola vizinha à muralha, do lado do mar, mas sem vê-lo, que me trouxe algumas memórias de infância, tendo eu estudado numa escola localizada num sítio histórico, sem muralhas e com vista para o mar. Almocei e jantei sempre em lugares diferentes para poder desgustar a cidade por todos os lados. Eu queria engolir Dubrovnik.

Mas, pela manhã, é possível ver Dubrovnik nua, sem gente, com janelas e portas fechadas. Ela estava lá, cáqui, impávida, imponentemente charmosa, me recebendo tão bem quanto eu imaginara e acordando devagar. Talvez aí eu estivesse um pouco em Dubrovnik, mas, ainda assim, faltava algo palpável que eu não sei explicar. Faltava o que sempre falta em um sonho.

Hoje eu percebo que Dubrovnik está em mim para sempre porque sinto o que não havia quando estava lá. Era a cidade se introjetando em mim, me seduzindo ferozmente a todo momento para além do meu cortejo constante e vulgar. Sucumbi com prazer a Dubrovnik e a seu feitiço de efeito retardado. Ela não é murada à toa.

Talvez --e sem diminuir o meu amor pela cidade-- a raiz desse sentimento esteja mesmo na muralha. Os grandes muros, seja o nefasto Der Mauer em Berlin, seja a Muralha da China vista da Lua, fascinam até hoje pela sua intransponibilidade. Diante dessa construção feita pela homem, desde os tempos mais remotos até 2008, é possível se sentir tão pequeno quanto diante de uma paisagem sublime.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Julho 14, 2008

HRVATSKA

Croácia em fotos grandes e legendas decentes.

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RANDOM NEWS

Aí, num sei se você ficou sabendo, vários empresários e políticos foram presos no Brasil. Depois foram soltos. E depois presos. E depois soltos. Mais um pouco eles gozam de tanto entra-e-sai.

Bom, aí teve isso, que parece que é muito importante mesmo, coisa de muitos bilhões de dinheiros; todos os jornais, revistas, TVs e portais do país noticiam isso há dias. Eu acredito que seja um assunto realmente importante, se não isso não seria destacado assim, né?

Mas, quando um assunto é super-importante, sempre há os subassuntos derivados, que são os melhores. Por exemplo, uma notícia ótima diz isto: Suposto braço direito de Dantas se entrega à PF em São Paulo.

Já vejo o delegado: "Ah, meu querido! Quer dizer então que o suposto braço direito resolveu dar uma mãozinha pra nóis?". E o que é um suposto braço direito? Significa que ele pode ser também um suposto braço esquerdo? Ou que esse Dantas é um suposto maneta? hahahaha.

Há outro subassunto. Juízes pedem independência do judiciário . What?!? Agora eles vão sair por aí com nariz de palhaço a gritar JUSTIÇÁ! JUSTIÇÁ! Hahaha. Quer uma dica, meretíssimo? Pega esse juiz aqui que ele está em melhores condições que você.

Eu gosto demais de notícia pra não ser jornalista.

Neo Zeitgeist





Domingo, Julho 06, 2008

LIVRO COM CAIPIRINHA

A Flip é o momento do ano que autoriza os jornalistas brasileiros (e nem tão jornalistas assim) a pagarem o maior pau possível para escritores estrangeiros sem parecerem completamente babacas.

Só parcialmente babacas hahahaha.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Junho 30, 2008

Fotos da
Croácia e mais

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Abril 29, 2008

PIG OVER TROUBLED WATERS

Quem vai ser encontrado primeiro? O padre ou o porco?

E quem vir o porco do tio do Pink Floyd por aí pode mandar email para --sério!-- lostpig@coachella.com.

Superfantástico!

Neo Zeitgeist





Domingo, Abril 27, 2008

CANDY GALORE


When in doubt, take Madonna at face value, começa a resenha de Jon Pareles no NY Times de hoje, a melhor que li sobre "Hard Candy".

My sugar is raw.

Right?

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Abril 23, 2008

SACODE

E o terremoto? Teve gente que "quase morreu", que viu o prédio "ir para a direita e para a esquerda", que achou que "tinha voltado a ficar doente", que "teve enjôo", que viu "a cama andar" e por aí vai.

Pra mim, achei elegante São Paulo no modo vibratório.

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Abril 22, 2008

NAS ALTURAS

A melhor notícia do dia: "Padre desaparece em vôo com balões de festa". Peraí, pelo amor de deus, peraí! Coméquié? Vamos analisar:

Praticante do balonismo caseiro, também conhecido como navegação em balões de festa (...), o padre iria divulgar a Pastoral Rodoviária, de apoio a caminhoneiros.

"Divulgar" qualquer coisa ligada a caminhoneiros a 5.500 metros de altura é tão adequado quanto anunciar fralda na Playboy. Ou seja, só por isso já leva o prêmio Idéia de Jerico 2008.

E "balonismo caseiro"? Como assim? Qual a altura do pé direito dessa casa? hahahaha. Conhecido como "navegação em balões de festa"? Conhecido onde? Em qual buffet infantil?!?

O padre levava barra de cereais e água no vôo.

Sei. Tipo a Gol?

O padre escreveu que seu primeiro contato com balões de gás hélio foi na adolescência, quando cursava a sétima série.

Uma coisa, gato, é você ficar com voz de Pato Donald. Outra bem diferente é dar uma de Mary Poppins.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Abril 21, 2008



Oooopa! A Veja já decidiu, tá? Foram os dois, e beleza. Precisa julgar não, bobagem, bora pro linchamento público, que tá firmeza.

Eu espero que eles não sejam os assassinos. Não porque ache que eles sejam inocentes, obviamente estou cagando pra isso. Mas porque a imprensa seria, quase sem exceção, esculachada pela irresponsabilidade de condenar, função, não custa dizer, que não cabe a ela em hipótese nenhuma, muito menos condenar a priori. Talvez a imprensa queira "furar" a Justiça.

E condenar (ou inocentar, mas isso não é notícia) não é só chegar a esse ponto baixo que só a Veja consegue. É apurar mal, é tomar como fonte única o que diz a polícia (e o que a polícia decide dizer), é editar imagens que condenam por si, é editar textos de modo a satisfazer o "que o leitor quer" (adoro jornalista, uma espécie bem curiosa de paranormal que sempre *sabe* o que o outro quer).

Já foram publicados, aqui e ali, muito discretamente, indícios do "circo da mídia", uma espécie de tentativa de se distanciar de uma postura editorial tomada quase unanimamente (não sei se é unânime porque não leio todos os jornais, sites e revistas nem vejo muita TV) que é o de capitalizar, da maneira mais burra, uma morte trágica como essa.

Burra como foi a entrevista exibida no Fantástico ontem. Foram mais de 35 minutos de entrevista com esses dois. Se o Fantástico fosse um jornal impresso, essa entrevista ocuparia uns dois cadernos grandes inteiros, sem anúncios, um desporpósito.

Não houve nenhuma pergunta que prestasse, nenhum questionamento de fato, nenhum confronto, como o básico: Como você acha que a sua filha foi morta? Ou: O que você vai fazer para descobrir o assassino? Ou ainda: Quais atitudes vocês pretendem tomar caso se descubra que os assassinos não são vocês? Ou também: A decisão de dar essa entrevista e se mostrarem "carinhosos" e "religiosos" não é um ato de desespero?.

Nem pensar. O repórter queria que os dois chorassem. Nunca confio em lágrimas na TV. Isso é tudo menos jornalismo. É entretenimento da mais baixa categoria, porque usa dois coitados, pessimamente articulados, mal orientados e acusados de assassinato, a seu próprio favor, apenas para ganhar audiência, não para obter informações relevantes.

Ou você ficou sabendo de alguma novidade depois de TRINTA E CINCO MINUTOS de entrevista? Então essa entrevista, tão exclusiva quanto irrelevante, deveria ter, no máximo, uns cinco minutos, o que já seria longa. Mas por que fazer isso, né? Bora pro picadeiro. Só não vale publicar textos "chocados" com os "populares e curiosos" que querem linchar os dois, tá?

Uma coisa está diretamente relacionada a outra. Ainda mais num país pobre. Aliás, isso tudo é derivado da pobreza geral.

***

Por falar em pobreza geral, hoje a mãe da menina estava no show do padre Marcelo Rossi. Que luto gostoso... E vestida com aquela camiseta horrorosa com a foto da filha estampada. Além de pobre, há algo de podre aí.

Como disse a ex-atriz pornô Xuxa durante esse "evento": "A violência começa dentro de casa. Você começa com um beliscão, uma pancadinha, aí estrangula, mata e fica por isso mesmo". Adorei a evolução da coisa, principalmente porque ela já deu vários beliscões em rede nacional. Sorte da Sasha (e azar nosso) que ela ainda está viva, posso concluir. Ou não?

Chega desse assunto, vai.

Neo Zeitgeist





Sábado, Abril 12, 2008

Os maiores portais do Brasil estão cada dia mais vulgares. Tratam com prioridade assuntos pobres, como engavatemento de carros, ônibus que cai em ribanceira (quer coisa mais pobre do que ribanceira?), vaca atropelada, cobra encontrada não sei onde, jacaré que mata turista, a lista de bizarrices é extensa.

Sugiro que todos os portais passem a ter uma estação dedicada a isso, chamada Acidentes. No menu, haveria os botões Animais, Carros, Gente (para mortes espetaculares e "incríveis") e Natureza (terremotos, tsunamis, furacões etc.).

Pronto, eis um bom material pra conversa cretina em bares.

Neo Zeitgeist




BOBOS

Você acredita em resenha de disco publicada antes do seu lançamento? Vai chegar um dia em que alguma publicação vai se retratar e afirmar que o disco que fora comentado antes da hora continha material diverso da versão final.

E aí vai ser bonito.

Aliás, pra quê essa ejaculação precoce? Pra quê falar do disco do Portishead um mês antes de ele ser lançado _e sem ter certeza de que aquilo é o disco do Portishead? Pra mostrar que você está "por dentro"? Pra você dizer que o disco é "ótimo" antes de todo mundo? (Você já viu um disco que "vaza" _vazou? então limpa!_ ser ruim? Claro que não, é sempre ótimo!).

E quando o disco está efetivamente disponível, o que se faz? Ignora-se. Porque a novidade já é "velha". Parece um editor que queria publicar uma matéria sobre o aniversário de morte de Frank Sinatra duas semanas antes da data para "furar" a concorrência.

Espertos.

Neo Zeitgeist






Veja a imagem maior. É uma foto de dois assassinos ou de dois inocentes?

Veja como é simples dizer que eles são assassinos só com uma imagem "factual".

Aliás, não é de esperar outra coisa uma imprensa que vai na cola das versões policias sem questionar e ecoa os selvagens que pedem a morte dos dois. Um lugar onde há uma polícia deficiente e é povoado por miseráveis, a imprensa local é o retrato disso.

Mas poderia ser mais inteligente.

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Abril 11, 2008

Você acha que os crentes da Universal têm fé ou má-fé?

Neo Zeitgeist




ROBERTO, FOLIA & JESUS

Não se pode esperar muito de uma miss. Ainda mais de uma miss que namora o governador de Minas e fica com o KLB. Mas aí ela disse o seguinte depois do show do Roberto Carlos:

"Acho que o show do Roberto Carlos é tão emocionante quanto o Carnaval e a Paixão de Cristo".

Acho que qualquer comentário pode estragar a frase.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Abril 09, 2008

UPDATE

Opa! Parece que o pai e a madrasta da Isabella não são mais os assassinos.

Saco.

Neo Zeitgeist




Angela Bismarck é tão linda, tão avançada, tão orientalizada, que vai botar um hímen novo feito pela Nasa. Não rompe nunca. Ao contrário, ganha forma do objeto que dele se aproximar, tipo aqueles travesseiros hahahaha.

***

Por falar nessa mulher (mulher por enquanto), dois amigos ótimos propuseram uma enquete: Se Angela Bismarck e o Juan Carlos Abadía, o maníaco da Hello Kitty, tivessem um filho (o cara tinha 300 cuecas! Quase uma por dia do ano! Não vai romper hímen da Nasa?), o que esse ser seria?

- Uma Hello Kitty. Com boca. No formato da bunda da mulher-melancia
- Um mini-traveco que já vem com gilete embaixo da língua
- Cocô de mágico
- Borracha com cheirinho no formato da Hello Kitty
- Dilma Rousseff de biquíni
- Um membro da Yakuza (mafioso "orientalizado")
- Um chicken McNuggets

***

Por falar em Abadía, e o bazar dele, hein? Sensacional. Teve biba que levou uma Bíblia em espanhol e um DVD do Pet Shop Boys. Ela disse que não sabia espanhol, mas que ia ler mesmo assim. Mas de baitolagem ela não ia precisar ter aula pra ver o DVD, né?

E tinha todos os objetos já produzidos em forma de Hello Kitty, que a mulher dele, Yéssica (é tudo muito bom), adorava. Deve ser a sucursal da Samrio mais noiada do mundo.

E as 300 cuecas --usadas!-- foram vendidas a R$ 1 cada uma. Nemfodeno. Se bem que deve estar tudo cheio de padê. Onde você acha que ele mocozava? ha!

Como disse meu amigo (aliás, aguarde novo blog dos três), o que vai ter de neguinho destruindo os objetos comprados pra achar cocaína dentro...

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Abril 08, 2008

NO NEWS

Estava fora do país e observo dois assuntos predominantes em jornais, revistas, TVs e alguns sites.

Um é o da morte da menina Isabella em São Paulo. Parece-me bem evidente que os culpados são o pai e a madrasta porque a mídia e a ótima polícia querem e porque, é claro, é mais legal. Se não forem, a imprensa vai ter um trabalho danado para negar o que vem publicando sem provas.

Não é preciso que se diga que ele e ela mataram a menina, assim, textualmente. Perderia um pouco do charme de acusar sem provas. O gostoso é publicar fotos deles como se eles fossem de fato assassinos, com sombras. O gostoso é sempre dizer que a menina foi morta no "apartamento do pai", que foram encontradas machas de sangue no "apartamento do pai", que a relação do pai com a mulher "é marcada por ciúmes" (e ciúme acaba em morte, certo?), o gostoso é mostrar "a dor da mãe, a que mais sente".

Não foi publicado nem dito, pra minha decepção, que o pai era "muito fechado e que não falava com os vizinhos". Daria um bom casal de assassinos, não? Um pai problemático e uma madrasta, que não precisa ser nada além de madrasta para ser assassina, é o tipo de casal que mata dia sim, dia não. É um nível de drama ficcional bastante raso, mas é disso que o povo gosta.

Enfim, tomara que os pais não sejam esses monstros, porque é sempre bom a imprensa transformar um personagem que não apareceu até agora em monstro maior ainda e mais rápido ainda. As chances de saírem mais cagadas são maiores, o que é divertido.

Uma obs: está na hora de algum estilista, assim, mais consciente, tipo Ronaldo Fraga, fazer uma coleção com camisetas com fotos péssimas de crianças. É bem esquisito --e me parece um fenômeno latino-- usar camiseta do seu filho morto para aparecer e comover, nessa ordem. Alguém usa essas camisetas depois da missa de sétimo dia? Quem manda confeccionar dezenas de camisetas assim menos de uma semana depois de uma morte brutal? Podia virar tendência. Modelito João Hélio seria vintage, por exemplo.

***

O outro assunto --ou não-assunto-- que ocupa muitas páginas de jornal, mas não provoca nenhum efeito fora da esfera governamental é a tal suposta denúncia do suposto dossiê dos supostos gastos do suposto governo FHC. Bacana.

Para a imprensa brasileira, o Brasil, o mundo e o universo têm a gestão FHC como paradigma de sucesso, riqueza, boa governança, bom gosto e elegância.

O governo Lula, na metade do seu segundo mandato, também considera o governo FHC um ponto de inflexão na história do país e precisa apagar essa mancha de qualquer forma. Então ele prepara um dossiê (ou um suposto dossiê, ou um banco de dados, ou um suposto banco de dados. Chega!) para tentar chantagear a oposição na questão do mau uso dos cartões corporativos ("nós usamos mal, mas esse mau uso não começou hoje").

Então surge a "denúncia" de que o governo teria esse dossiê para tentar chantagear a oposição. O conteúdo desse dossiê não importa. O que importa é que --meus deus! Quel horreur!-- esse governo de gente pobre tenta, *cof,cof*, nos chantagear com gastos da imaculada dona Ruth. E isso precisa ser investigado, a qualquer custo.

Não, já disse que não importa o que há nesse relatório (dossiê, banco de dados. Chega!), o que importa é o que as mentes criminosas que comandam o país fariam se nós, a imprensa (veja bem!), não as tivéssemos denunciado.

Viu só como é legal ter uma imprensa assim? Estamos salvos! Basta ver a edição da Folha no dia seguinte do pronunciamento da ministra-gata Dilma Rousseff. *Todas* as seis fotos em uma mesma página tentavam mostrá-la em posições constrangedoras. Então, você, leitor esperto, pensa: se um jornal tucano edita e publica essas fotos, é porque existem interesses tão ótimos que fazem com que o próprio jornal escorregue na própria sede de punição e caia, ele mesmo, em descrédito absoluto.

Ou seja, voltei ao Brasil, e parece que nada está acontecendo. O Brasil está se transformando num enorme Portugal.

Neo Zeitgeist





Domingo, Abril 06, 2008

DEPILADO E TRANSPARENTE

É sempre legal zoar o Richarlyson. Primeiro porque ele tem esse nome. Segundo porque ele acha que fazer a sobrancelha é "higiênico" (sério).

PERGUNTA - Vai a salão de beleza?
RICHARLYSON - A salão vou pouco. Faço cabelo com o Giba, aqui no CT [da Barra Funda]. Não faço sobrancelha, tiro só o excesso. A maioria faz aqui no Giba. Gente, isso é até engraçado. Isso não é vaidade, isso é higiênico, já pensou ir num restaurante com as unhas sujas e mal cortadas? É a mesma coisa que ir a um restaurante de camiseta regata, com os pêlos à mostra, suando.


Chofalar uma coisinha pra vc, gato: tirar a sobrancelha = tirar o excesso, ok? E outra: quem fala "gente" no começo de frase? Só quem tira a sobrancelha, oras!

A pergunta que o cara tinha que ter feito é: e se o cara em questão estiver depilado (quer dizer, sem o "excesso") e sem suar? É higiênico ou é tesudo?

Mas tudo bem, Richarlyson (me parece de origem sueca, não?), vou dar uma chance, mesmo depois de você admitir que gosta de Emilio Santiago --Emilio Santiago, é foda, hein? Emílio Santiago! Estou estupefacto hahahaha! E ele ainda disse que gosta de cantar "Saigon" numa entrevista que maldosamente foi intitulada de "Meu jeito de ser incomoda muito", diz Richarlyson, título adequado, convenhamos, a uma entrevista com Ney Matogrosso em 1973.

Mas vou dar uma chance a você assim mesmo porque eu quero que você se saia bem na fita:

PERGUNTA - Acredita que se daria bem no palco, pois gosta de aparecer?
RICHARLYSON - Não é que eu goste de aparecer. Talvez apareça pela minha transparência.


Oi? Agora você é de vidro? De Murano, claro, porque é mais "higiênico"...

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Abril 04, 2008

BUATSI

Obviamente eu não tenho saudades de boate. Mesmo se a boate se chamar de clube. Principalmente se esse clube me aceitar como sócio (carteirinha nº 011).

Ocorre que eu vi uma série de depoimentos, todos um pouco emotivos demais, sobre o tal clube, que se chama Lov.e e vai fechar depois de dez anos --surgiu como Lov.e Club & Lounge, porque tinha pufes.... Esse ".e" é uma das coisas mais passé ever, mas, por isso mesmo, é algo divertido e simbólico da neo-cafonice paulistana.

Então resolvi contar uma ou duas coisas.

Até o "advento do Vegas", o Lov.e tinha sido o lugar aonde eu mais havia ido em SP. E as idas começaram em 98. Com drum'n'bass, veja só. Durante meses, ia todas as quintas com meu amigo. Todas. Era um som fresco (apesar do calor e do fedor da pista), tinha a ver com o momento, era agressivo e delgado na medida.

Fiquei muito bêbado, muito louco e, poucas vezes, muito sóbrio nesses e em outros dias. O som que saía das caixas, definitivamente, foi o melhor que já ouvi na cidade. Era bom ficar no meio da pista, o corpo se movia direitinho, impulsionado pelos graves e pelas luzes na pista, nunca muito escura, nunca muito clara, nunca muito feérica, mas sempre "moving".

A máquina de tirar foto grátis que ficava na entrada do banheiro era "a maior legal" e não durou muito.

Aí teve um momento, um só, que não se repetiu nunca mais em lugar nenhum do mundo. Num dado dia, estava eu em outra balada e decidi, sozinho, ir ao Lov.e porque eu queria dançar um pouco (aliás, esse era um dos principais motivos para ir até lá).

Cheguei às 5h e pouco, deixei o carro no manobrista, abri a porta do Lov.e, e "Blue Monday", do New Order, começou a tocar num remix ótimo. Como não houvesse ninguém na minha frente, continuei meu passo até a pista e dancei como se deve. Quando a música acabou, uns dez minutos depois, segui o caminho de volta e fui embora. O meu carro ainda estava à espera do manobrista. Entrei e fui pra casa. Era esse momento resoluto e mágico que eu precisava naquele instante --e foi espetacular.

O DJ que fez isso pra mim sem saber foi The Hacker, soube depois.

Pronto, acabou, tchau, que venham novas boates, novos clubes, porque os que existem hoje em SP são muito esquemáticos.

Neo Zeitgeist






Ozzy Osbourne não está a cara da Suzana Vieira?

Neo Zeitgeist




AH, TÁ

E o excelente cantor e versátil ator Toni Garrido manda avisar à imprensa que "está de saída" da banda Cidade Negra, mas "não está disponível para entrevistas". Obrigado por nos lembrar que você e essa banda ainda existem, gentil de sua parte.

Será que vai ter alguma entrevista "exclusiva" na qual ele vai "abrir o jogo"?

Faz isso com a gente não.

Neo Zeitgeist





Quinta-feira, Abril 03, 2008

ATENCIÓN!

Chico César começa hoje maratona de shows na Argentina.

Bora voltar o "cacerolazo" porque isso é mais grave do que locaute de produtores rurais!

Neo Zeitgeist




WET TRAFFIC

Viu que foi só chover que o trânsito de SP bateu novo recorde? Tá usando o maiô da Speedo!

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Abril 01, 2008

JÁ VISTO

Miamarro em notícias de ciências:

Descoberto o menor buraco negro já visto

1) Isso porque esses cientistas nunca foram à Loca.

2) Já visto. Os não vistos pertecem a outra categoria, né?

Neo Zeitgeist




O ETERNO RETORNO


Parece que vão ter de providenciar entrega de senha, porque tem muita gente voltando --e voltando ao mesmo tempo. Não vai caber, cara!

Se não, vejamos:

- Diz que o trip hop "voltou". Muito bom! Até porque foram citados Moloko, Morcheeba e Supreme Beings of Leisure, todos tão aleijados nos anos 90, que o último tocou até no Blen Blen, que deus o tenha. Mas, enfim, se você acha que o trip hop "voltou", boa sorte, beijo.

- Diz que o electro voltou também. Xi, agora não me lembro se ele voltou ou se ele morreu... Mas eu acho que ele "está de volta" também, pode procurar direito.

- Diz que a psicodelia voltou. (Tenho que confessar que eu gosto muito mais de site indie brasileiro do que de site indie americano porque aqui eles são seriões. Não dá pra copiar e ainda ser engraçadão, como Pitchfork, Stereogum etc.).
E digo mais: diz que a psicodelia voltou e foi a maior viagem hahahahaha.

- Não vou nem falar no stress que foi 2007, com Rage Against the Machine, Jesus & Mary Chain, Police, Happy Mondays, tudo "voltando". Vamo fazer uma fila direitinho?

- Bom, parece que o Beto Barbosa voltou também.

Adocica.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Março 26, 2008

O PIAUÍ ESTÁ EM CHAMAS

O melhor do Big Brother não passou na TV. Está hoje nos sites do Piauí!

Por exemplo, o meionorte.com.br, o site que traz "notícias do Piauí, Brasília, Ceará, Maranhão, Brasil e do Mundo". BRASIL E DO MUNDO! hahaha.

Pois bem, essa publicação, noticia o seguinte (berenice, segura):

** "Globo deu tempo a mais para Rafinha se recuperar", denuncia prima de Gyselle Soares

Denúncia! hahahaha

O tio de Gyselle, Francisco Soares, acha que houve erro de estratégia no final, ao invés da multidão estar no clube deveria seguir com a votação.

Pararam antes! hahahahaha. É que as mensagems do Piauí demoram mais pra chegar ao Rio. Diz que ainda tinha um monte de voto em Minas Gerais quando a votação foi encerrada hahahaha.

** Mr Manson, do cocadaboa, debocha de Gyselle no BBB

Linha fina: Para ele a consagração da piauiense no reality show da globo seria nossa chance

CHANCE DE QUE? hahahahahahahaha. Eles acham que essa Gyselle ia gastar o R$ 1 milhão só no Piauí? hahahaha. Que ia gastar metade do PIB do Estado em THE? Sabe o que é THE? É como eles chamam Teresina! THE é Teresina em inglês hahahaha.

** Gy, pra gente você é a grande campeã do BBB

Essa é a manchete (só um pouquinho editorializada) da seção de Entretenimento do site, cuja linha fina é: R$ 1 Milhão escapou, mas piauiense chegou à final representando com honradez o Piauí no BBB. Escapou e honradez!

Aí a primeira notícia relacionada: Bebê que nasceu no terceiro paredão da piauiense Gyselle está no Cacique de Ramos

Eu estou passando maaaaaaaaal! A final do BBB foi um Réveillon no Piauí! Tipo, o primeiro bebê do ano!

** Aí vem a denúncia total, o desabafo, o que está preso na garganta de todo piauiense hoje:

TV Globo rompe normas do "BBB" para não dar R$ 1 milhão para a "como e dorme" Giselle

O texto acaba assim: A Gyselle mostrou que [o game] não [é "verdadeiro"] e expôs as fraturas do sistema. Por isso a TV Globo "roubou" o resultado pró-Rafinha, o homem cordial. Sensacional!!!!

***E eis que a moça está em processo de virar mártir e depois da "carreira de cantora na França", vai acabar fazendo milagre no Piauí:

Assembléia aprova voto de louvor à Gyselle

Hahahaha! Alguém avisa que esse voto não conta? Mas o português é excelente!

** E tem mais, porque eles vão ATÉ O FIM:

Assembléia quer investigação na final do BBB

Morri, tchau!

Neo Zeitgeist





Domingo, Março 23, 2008

MÚSICA PARA AS MASSAS

Nunca havia gargalhado ao ler nada do caderno Mais! da Folha. Hoje rolou, e o humor não era involuntário. Da coluna de Jorge Coli, que compilou algumas "pérolas" tiradas (ou não) literalmente de vestibulares pra música:

** A importância de Tristão e Isolda reside no fato de que é uma música muito triste. Mais triste que a Tristesse, de Schopping

Gentê! hahahahaha. Muito bom, mas a tristeza maior é o nome do compositor da canção "menos triste": Schopping. Não, não aquele que tem estacionamento. Chopin! Sim, do prédio da Narcisa.

** Os maiores compositores do Romantismo são Chopin, Schubert e Tchaikovsky. No Brasil, temos Roberto Carlos e Daniel

Sen-sa-cio-nal! Incluiria o Wando, só para manter o paralelismo de citar três de cada "país".

** Virtuoso no piano é um músico com muita moral

Porra, brother! O cara manda muuuuito, na moral.

** Carmen é uma ópera e Carminha Burana é sua filha

Ô, familinha desgraçada.

** Os compositores renascentistas reviveram a música, pois ela havia sido morta pela Inquisição

Foi. Levaram a música pro pronto-socorro enquanto a polícia procurava a safada da Inquisição. Aí os médicos renascentistas (especializados nisso mesmo), que já tinham visto horas de "ER", foram maravilhosos, e hoje você ouve Calcinha Preta graças a eles. Que deviam se chamar Heróis.

** As Fugas de Bach são famosas porque ele não queria ficar preso em nenhum sistema

Nem Bach, nem as galinhas, cuja fuga passou até no cinema.

** A música eletroacústica é a mais avançada das tendências da música eletrônica hoje em dia. Seus principais compositores são os DJs e a banda Craftwork

Tipo... Oi?

** Chopin fez poucas baladas, pois sofria de tuberculose. Assim não dava para ele cair na gandaia à noite, dançar, beber e curtir as minas, mais parece que ele não era chegado

Mal sabe ele que no edifício que leva o seu nome rolam altas.

** Bach está morto desde 1750 até os dias de hoje

Initerruptamente!

** Mozart morreu jovem. Sua maior obra é a trilha do filme Amadeus

Parece que ele morreu tão jovem, mas tão jovem, que ele não chegou nem a ver o filme pronto. Uma tristeza (menor do que a de Schopping, claro).

** Muitos pesquisadores concordam que a música medieval foi escrita no passado

Foram semanas de debates intensos entre a comunidade acadêmcia, mas, no fim, não teve nenhum que discordou. Saíram até pra comemorar depois.

** Cage inventou os quatro minutos de silêncio

Foi mesmo. Diz que rola até direito autoral. Então o pessoal, que não é bobo nem nada, faz direto só um minuto de silêncio. Porque é grátis.

** Os menestréis e trovadores transmitiam notícias e estavam nas festas. Andavam de cidade em cidade, de castelo em castelo e iam até nos shows de TV.

Faltou dizer que era tudo permuta hahahahaha.

** A ópera mais romântica é a Paixão de Mateus por Bach

Praticamente um Brokeback Mountain.

** Há uma espécie de Corais feitos por Bach, que se chamam Florais e são usados como remédios milagrosos

Parei.

Neo Zeitgeist




- Ah, sabe, é que eu sou um músico underground.
- Não sabia que você tocava no metrô.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Março 19, 2008

FUCK POLITELY

Outro dia eu estava na Internet (no names) e vi que havia uma senhora que prestava esclarecimentos ao público sobre "boas maneiras na cama". Como me pareceu um tema bastante paradoxal ("com licença, posso meter?"), enviei algumas perguntas, que, infelizmente, não foram respondidas.

Mas deixo-as aqui caso algum leitor tenha uma resposta. Observe que o tom era de um internauta genuinamente educado e curioso hahahaha:

** Peido é natural, em algumas culturas até é sinal de elogio. Mas, às vezes, um peido durante a transa pode não soar (nem cheirar! hehehe) bem. O que deve ser feito quando alguém peida na cama? A gente pede desculpa ou goza antes?

** Estou com a minha namorada na cama e gostaria de ser elegante. Devo meter pela direita ou pela esquerda, como os franceses tradicionais?

** Tenho claustrofobia e só consigo transar em lugares amplos, como um bom loft. Como explicar para minha parceira que sofro desse tipo de síndrome sem que ela ache que eu sou esnobe?

** De uns tempos para cá, meus pêlos pubianos começaram a ficar grisalhos. Vc acha que eu devo assumi-los diante da minha parceira ou devo tingi-los?

** Adoro quando minha mulher engole. É de bom-tom que ela me devolva isso durante o beijo?

Acho que isso pode ajudar muita gente. Obrigado, Brasil!

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Março 18, 2008

O FETICHE DO TRÂNSITO

Há uns 30 anos, o trânisto em SP é tema de indignação, revolta, stress. Ou seja, ninguém se acostumou ainda. Ou melhor, reclamar da dificuldade de circulação de véculos na cidade é um fetiche social. Engraçado que quem reclama tem carro e ajuda a aumentar o trânsito na cidade (obviamente que SP não oferece muitas alternativas a quem não tem carro, além de ser mal administrada há décadas, cujos prefeitos construíram "Minhocão", "Cebolão" e outras aberrações para "melhorar" o trânsito --a mais nova bizarrice é uma ponte monstruosa que liga o Morumbi à Cidade Jardim, que alguns idiotas chamam de "novo cartão-postal"-- etc. etc. blablablá).

Basta uma chuva no fim da tarde para que "o motorista encontre dificuldades". E tome prazer sádico ao acompanhar a evolução de gráficos que mostram as centenas de quilômetros de engarrafamentos. O prazer está também em compartilhar com "os amigos numa mesa de bar" o tempo "absurdo" que se levou para ir de um lugar a outro.

Agora descobriram que existe até engarrafamento nas garagens de edifícios.

A conversa geralmente acaba em "Onde isso vai parar?", sendo que parado já está, não é por nada não.

Outro dia estava ouvindo uma rádio que cobre exclusivamente o trânsito em SP --veja o grau de sofisticação desse fetiche-- "a rádio que cobre o trânsito da cidade mais engarrafada da América Latina", disse o locutor, orgulhosíssimo. É muito bom, porque é uma rádio sobre o nada, a não ser que você seja taxista ou um sádico para gozar ao saber que tais e tais corredores estão parados --ou desconfiar quando ouve que determinado trecho da Marginal está livre ("e, quando eu digo livre, é livre meeeeeesmo", como ouvi) às 20h de uma sexta.

Enfim, é curioso que haja surpresa e indignação vazia em relação a isso. Uma cidade com uns 12 milhões de habitantes que não investe nem investiu em metrô e outros transportes públicos deveria ter um trânsito fluido? Jura mesmo? É assim e não vai mudar tão cedo, não precisa ficar nervosinho nem exigir "respeitô". Lide com isso e pronto, normal.

Mas eu acho que há um sentimento de orgulho, no fundo. O trânsito em SP é um sinal de progresso, de caos urbano, de "loucura da metrópole". Du-vi-do que, se os engarrafamentos monumentais deixassem de existir, SP se orgulharia dessa ausência de trânsito. É legal ter um motivo "externo" para se estressar --e um motivo que se sabe inexorável. É quase como xingar o time adversário em futebol. É saudável!

Por isso a "delícia" que São Paulo é durante os feriados, "sem trânsito nenhum".

E te digo mais uma coisa: sabe o que esse trânsito todo em SP provoca nas outras cidades do Brasil? Inveja. Em Brasília, cidade com trânsito sonolento, se diz que "o trânsito está uma loucura", como sinal orgulhoso de que a cidade "evoluiu" e agora, sim, é uma cidade de verdade, e não mais um fim de mundo no meio do cerrado.

Enquanto isso, acompanha-se com a curiosidade de um voyeur, pelo rádio ou Internet, as "dificuldades" do motorista, esse sujeito indeterminado, e planeja-se o trajeto --ou uma desculpa para se atrasar-- de acordo com esse fetiche.

Neo Zeitgeist




LEITOR APRESSADO

Quando eu li na Folha que o jornal passaria a publicar uma nova seção chamada Folha Corrida, imediatamente pensei se tratar de assuntos relacionados a esse tipo de exercício físico. Nem deu tempo de pensar que poderia ser um investimento do jornal na área policial, ainda que o trocadilho soasse bastante infeliz. Li imediatamente que se tratava de uma seção direcionada ao "leitor apressado" (estaria a Folha investindo nos correrias?).

"Leitor apressado" é uma figura que existe só porque a Folha quer. Quem tem pressa não lê --mesmo os "sossegados" lêem cada vez menos, vide a circulação dos jornais.

Então esse sujeito "apressado", diz o jornal, pode ficar por dentro do que acontece no mundo em "cinco minutos" ao ler essa seção, uma página inteira. Isso não deveria ser a função da primeira página? A Folha Corrida (é muito bom esse nome, vai) ocupa a contracapa do caderno Cotidiano.

O "leitor apressado" tem de abrir o jornal, procurar o caderno Cotidiano e ler sua contracapa. Tomara que ele não tenha tanta pressa assim...

O curioso é que a Folha, que tem um dos piores sites de sua versão impressa entre os grandes jornais do mundo, imprime em papel o que que poderia ser publicado em uma tela, cujas chamadas poderiam apontar para as páginas com as notícias em si. Parece uma homepage impressa. Parece também conteúdo ideal para essas telas instaladas em elevadores e táxis que exibem as "últimas notícias".

Mas no site, a página fica assim, o que não faz nenhum sentido.

Ou seja, a idéia não é má, só é executada na "mídia" errada.

Neo Zeitgeist





Quinta-feira, Março 06, 2008

"Show de bola" é o "arrasa!" hétero.

Neo Zeitgeist




STONES E DYLAN NO MESMO DIA

Pela manhã, show dos Rolling Stones. À noite, show de Bob Dylan. Como bem disse meu grande amigo que me acompanhou nesses eventos, "hoje foi um dia feliz".

Sobre os Stones, o balé de Mick Jagger é captado de modo inédito em "Shine a Light" (China Light?), de Martin Scorsese. A dança do líder sexy da banda que faz o blues mais sexy que existe é tão enérgica quanto bela. E eficiente. Aquele cara magro transborda para dentro de quem o olha. Isso inclui seus colegas de banda, o público do Beacon Theatre e você.

Scorsese faz com que você seja Mick Jagger, que você esteja no palco com Keith Richards, que você possa perceber como é ser o maior e mais longevo rock star do mundo.

E os olhares. Os olhares! A câmera se move na altura dos olhos dos caras (Scorsese style), não de cima para baixo, como são as captações regulares de shows. E ali se dá uma comunicação fodida entre todos. Cada olhar diz tudo que precisa ser dito. Depois de mais de 40 anos juntos, os Stones se comunicam cada vez mais com cada vez menos recursos.

E então, Dylan. Gostaria de ter visto Dylan e sua ótima banda num bar de beira de estrada no Kentucky enquanto tomava cerveja com um amigo --o mesmo que viu esses shows ontem não seria mau, hein?. Acho que prefiro ouvir a música no lugar onde ela faz sentido, ou, nesse caso específico, no lugar de onde ela brotou, na América Profunda, banhada de conservadorismo, religião e desolação. Dylan subverte isso ao pertencê-lo.

Que voz, não? Uma voz poderosa que diz poucas palavras inteligíveis, mas que reverbera uma trajetória singular, uma voz que emite o palimpsesto da história do rock que viveu e cantou. Em cada nota (nota?) ecoa uma respeitabilidade fodida (ainda que isso não seja sinônimo de reverência), que só esse sujeito tem, porque, como Campari, só ele é assim. É quase palpável essa voz. Não se fica imune a isso, há que se perceber que existe uma força incomum.

Então, eu puxei o coro de "Judas! Judas! Judas!" enquanto todos gritavam "Dylan!". Primeiro e principalmente porque foi divertidíssimo, segundo porque isso é a subversão da reverência sacra devotada a ele por meio de um expediente caretíssimo, usado justamente porque Dylan havia sido subversivo.

Mas também gritei "Suplicy! Suplicy! Suplicy!", que até agora deve estar procurando a resposta que o vento levou pra longe.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Março 03, 2008

Notícia:

Record tenta tirar Fábio Assunção da Globo

E vai oferecer o quê? Uma carreira brilhante? hahahaha

Neo Zeitgeist




SEMENTE DE MOSTARDA

Após perder seu filho, uma mãe procura Buda na esperança de que seu filho volte com vida e de que sua dor seja aplacada. Buda lhe diz que a cura está na semente de mostarda encontrada no jardim de uma casa. Mas não de uma casa qualquer. Nela não podem ter havido mortes de ninguém que more nela nem dos seus parentes; enfim, a mãe teria de encontrar uma semente de mostarda em um jardim de uma casa livre de dores. Ela sai em busca da semente em tal casa. A procura foi grande, mas infrutífera. A mãe não encontrou nenhuma casa onde não tivessem havido mortes e dores. Eis o ensinamento: a compreensão de que o sofrimento dela não era único e o consolo que as dores alheias podem lhe dar.

A diretora Fernanda Scalzo fez sua busca particular em jardins de casas cujas dores são tão pungentes quanto as dela no documentário "Semente de Mostarda", recém-finalizado. E ela não vai sozinha nessa jornada.

Sete mães desconhecidas entre si compartilham suas experiências de terem seus filhos mortos, numa espécie de ciranda em que uma entrevista a outra, que entrevista uma terceira, e assim por diante. Não há pais, irmãos ou parentes no filme, apenas mães e algumas imagens das crianças.

A causa das mortes desses filhos são tão variadas quanto a idade deles: assassinato, doença congênita, desaparecimento, meningite fulminante, acidente de moto, leucemia e bebê natimorto. O tempo de perda varia de pouco menos de dois anos a mais de 20 anos, o que faz com que as reações dessas mães sejam distintas entre si.

O tema é duro, duríssimo, e é tratado com elegância e sobriedade notáveis, sem que a obviedade da busca pela lágrima gratuita (ainda que nenhuma das derramadas no documentário possa ser classificada assim) seja determinante. O que importa aqui é a expurgação da alma.

E o fime é tocante não só pelos casos relatados, mas, principalmente, pela maneira como ele é conduzido. É muito fácil emocionar o espectador com depoimentos de mães que perderam seus filhos. Difícil é fazer disso algo libertador tanto para as próprias mães quanto para quem lhes assiste. "Semente de Mostarda" cumpre esse papel, tal a lenda de Buda, e em escala maior.

Ao fazer com que uma mãe entreviste a outra, Fernanda obtém um diálogo profundo com a experiência da perda, algo impossível numa conversa entre um documentarista "isento" (ou um jornalista, profissão da diretora) e alguém que hoje não tem mais o seu filho por perto. As dores se complementam e se diluem no decorrer do filme e se tornam um grande oceano difícil de navegar, onde elas mesmas ditam a rota da serenidade, já que, como diz uma delas, "ninguém perguntou se eu queria passar por isso, simplesmente tive que lidar".

Há uma cumplicidade tão espantosa entre elas que é preciso repetir que essas mães não se conheciam até a filmagem desse documentário. E é aí que reside a força de perguntas como "como foi quando você soube?", porque quem questiona não o faz por nenhum outro interesse que não seja o de simplesmente ouvir, já que ela própria também tem a sua resposta.

A diretora começa a ciranda de entrevistas. E ela é a última entrevistada, que narra sua experiência com a morte de Matias aos 4 anos, há 15 anos.

"Semente de Mostarda", o primeiro documentário de Fernanda, é um filme corajoso por expor talvez a maior dor que uma mulher possa sentir, ainda que "não seja uma questão de escala de dor", como diz uma mãe. E por expor com delicadeza e "emoção objetiva" a própria condição da diretora.

Com isso, o filme oferece a cura possível para uma dor tão infinita quanto a vida, um poder que só as mães têm.

Neo Zeitgeist





Sábado, Março 01, 2008

MINIDYKES

Eu sei que as crainças estão cada vez mais adultas, que são independentes, que fazem shows, lançam discos e fazem programas na TV com desenvoltura.

Até as mais erotizadas estão cada vez mais seguras de si.

Mas a notícia de que uma menina de 5 anos morreu depois de comer uma bolacha deixou toda a comunidade lésbica preocupadíssima.

Não há informações se a bolacha em questão usava pochete durante o ato.

Neo Zeitgeist




O final de abril reserva dois lançamentos que devem causar algum barulho. O disco de Madonna, por motivos óbvios, sempre chama a atenção, ainda que eu não tenha grandes expectativas em relação a esse "Hard Candy", último disco lançado dela pela Warner, porque raríssimos álbuns lançados sob imposição de contratos são relevantes; tudo cheira a ocaso.

Já o terceiro álbum de Jamie Lidell, dia 28, pela Warp, pode ser mais estimulante. Não só pelo excelente segundo disco, de 2005, como por isto.

Neo Zeitgeist




Remistura caminha para a 30ª edição.

Conhece não? Clica e ouve.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Fevereiro 20, 2008

Já falei aqui sobre essa gente que fala no cinema, e essa é uma pauta tão "mesa-de-bar" que é ideal para o programa da Regina Casé --se ela gravasse em lugares onde existem cinemas.

Acredito que quem paga um ingresso de cinema é rico o suficiente para ser o mais selvagem possível, e isso é um processo sem volta no Brasil.

Então eu faço um pedido, quase uma exigência: vamos elevar o nível dos comentários? Sim, porque me atrapalhando você já está, então ao menos me faça refletir.

Frases como "ele vai matar ele", "ele voltou", "ela parece com aquela minha tia", "o filho ficou surdo, olha", "ô, meu deus..."(ao ver um bebê/criança/animal) e variações (infelizmente infinitas) desses temas passam a ser consideradas... cafonas. Vamos chamar de cafonas para que os ricos pelo menos se sensibilizem.

Em vez dessas burrices --porque invariavelmente *todos* os comentários feitos dentro de uma sala de cinema são estúpidos; to-dos--, você pode falar "a luz dessa cena se parece com a luz do Coppola", "nossa, a trilha incidental é muito boa", "esse filme é óbvio demais" (atenção para essa última, que pode parecer estúpida, mas denota um senso crítico acima da média), "que roteiro engenhoso!" ou simplesmente "uau!".

Assim é possível até que você faça amizade comigo, caso eu esteja ao seu lado.

Neo Zeitgeist




Fidel Castro é bem gênio. Ele fodeu todos os meios de comunicação do mundo, que esperavam prontinhos a morte dele com biografia, fotos da "trajetória", repercussão, análises, artigos, o escambau. Agora, quando ele morrer, todo mundo vai usar o mesmo material tudo de novo hahahaha.

Rrênio!

E eu gosto também que Fidel é autoritário até quando diz que não manda mais em nada:
Comunico que não aspirarei nem aceitarei -repito- não aspirarei nem aceitarei o posto de presidente do Conselho de Estado e comandante-em-chefe das Forças Armadas.

Entenderam? Então obedeçam! hahahahaha.

Neo Zeitgeist





Sábado, Fevereiro 16, 2008

É difícil ser mais velho e detraquê do que ao dizer que um filme é uma "fraude". Outro dia eu li um texto sobre um determinado filme brasileiro em que a autora dizia que se tratava disso, de uma fraude.

É o tipo da crítica que era feita --e provocava sensação-- nos anos 80, época, aliás, em que se passa o tal filme. Nos anos 90, esse tipo de abordagem em relação a filmes ou discos ainda se manteve, mas com impacto diluído.

Hoje, quase nos anos 10 do século 21, soa bobo. Por várias razões, a principal é que nenhum texto análítico sobre um produto cultural ou manifestação artística tem o mesmo impacto de 10, 20 anos atrás, pelo fato de hoje haver uma disseminação brutal dos meios de comunicação, de modo que não há mais veículos de referência, tampouco críticos e jornalistas que funcionam como guias, como vozes a serem ouvidas.

Se eu ou você podemos publicar o que quer que seja, os jornalistas mais talentosos perdem com isso, e a luz do seu farol de idéias se torna mais e mais fraca.

Desse modo, uma crítica que parte para "acusações" contra um filme, um disco ou um livro é, antes, uma maneira de se sobressair do mar de textos a que estamos imersos. Claro que aparece, mas a um custo, ao meu ver, desvantajoso, porque provoca um debate estéril, de amor ou ódio, em vez de reflexão.

É difícil também que uma crítica que "denuncie" um filme (o diretor, pelo texto, quase merece ser preso ou submetido ao escárnio geral pelo "crime") não seja vítima, ela mesma, de clichês e chavões, justamente as "provas" de acusação.

Enfim, a crítica cultural que se pratica no Brasil é bastante desimportante. Quase uma piada. Quase sem exceções, seja pela influência que exerce, seja pelo talento dos que escrevem.

Por isso e por muito mais, fico feliz de não mais fazer parte desse universo, em que meu desempenho não foi sem sequer igualado, seja pela influência, seja pelo talento dos que escrevem. Um dia eu ia dizer isso, ainda que possa estar enganado.

Neo Zeitgeist





Domingo, Fevereiro 10, 2008

Sem aviso prévio, diversos amigos próximos se reproduziram ou estão à espera de um herdeiro. No último ano e meio e por mais ano e meio, creio, acontece um baby boom particular.

Como não faço parte dos novos pais e como os amigos em questão são bem próximos, isso provoca algumas mudanças em mim e na minha relação com eles e com o mundo.

O fato de eu passar a ter novos amigos, na forma de amigos antigos, é a mais evidente. Os hábitos, especialmente neste início de vida, mudam radicalmente. A saber, passam a ser diurnos e caseiros por motivos óbvios. Pelos mesmos motivos, eles se tornam mais ausentes (do meu ponto de vista, é claro).

A descoberta da paternidade e maternidade provoca profundas modificações neles e, em menor medida, em mim mesmo, que acompanho relativamente de perto e de certa forma convivo com uma criança pequena --e não é uma criança qualquer, é o filho deles. E uma criança, definitivamente, é uma novidade no convívio entre os meus amigos.

Enfim, meus amigos se tornam outros, e eu, sem filho, me torno também diferente à revelia. Uma nova relação se dá, ainda que os alicerces da amizade permaneçam e, até, se fortaleçam.

É um divisor de águas nas nossas vidas, ainda que eu use a "minha" vida como parâmetro. Até agora é prazeroso esse câmbio brutal e, pela primeira vez, uma mudança que será para toda a vida, com desdobramentos imprevisíveis, como é, ela mesma, a vida.

Curioso que o fato de os meus amigos terem filhos faz com que eu reflita sobre a minha própria vida, por comparação e espelhamento. O outro se torna a medida de mim mesmo.

Isso também se dá com uma coincidente descoberta de novos amores por parte de alguns amigos bem próximos. Uau. Muita informação. Que, do posto de observador, me contento em ser exatamente isto: um espectador, sem, contudo, apenas ver a vida passar.

Os 35 me parecem uma idade fértil sob todos os aspectos. É claramente o auge da vida.

Neo Zeitgeist





Domingo, Janeiro 20, 2008

PRETINHO BÁSICO

O diretor da São Paulo Fashion Week adotou uma criança em julho passado, ou seja, esta é a primeira temporada de Paulo Borges versão pai. E pode-se dizer que o "pretinho básico" é tendência. "Botei na cabeça que adotaria filhos negros, e na Bahia, porque eu adoro a raça africana, a descendência afro-baiana", disse Borges à Folha em setembro. Uma graça, não?

Não sem razão, o "tema" da SPFW, que está rolando esta semana, é "diversidade social, racial e cultural", eufemismo brasileiro para tratar de negros.

Então a questão da pouca presença de modelos negros nas passarelas, que é pauta antiga, ganha vigor com as circunstâncias.

A rigor, a moda vende sonhos, o inalcançável por meio de roupas, perfumes e acessórios. Imagem é tudo, e, no Brasil, o sonho é não ser negro, apesar de ser o país mais negro fora da África (ou talvez por isso mesmo). Agrava essa situação o fato de os negros serem mais pobres, mais analfabetos e mais presos que os "brancos".

Sob o ponto de vista de imagens irreais, não vejo problema ou contradição em ter meninas brancas e esqueléticas como "padrão" não de beleza, é claro, mas de cabides onde as roupas são penduradas. Além disso, a pele cor de cera funciona também como uma tela neutra onde a roupa se destaca com mais facilidade nas fotos e vídeos.

Por outro lado, estamos no Brasil, talvez o único lugar do mundo onde existam "pardos" autodeclarados, uma espécie de "raça" off-white, para usar um termo "fashion". Para quem então os estilistas e a "indústria" da moda brasileira vendem? Não para negros, mas para aqueles que se acham brancos, que são, em média, mais ricos que os negros e que tentam, historicamente, se distanciar deles. É quase um posicionamento (a)político.

Também, como estamos no Brasil, copia-se. Em Paris, Milão e NY, os modelos negros são minoria. Portanto aqui não vai ser diferente, já que queremos ser como eles sob todos os aspectos, inclusive nas roupas, não raro copiadas de modo escancarado das grifes francesas e italianas mais conhecidas.

A Folha publica um placar diário da presença de negros nas passarelas da SPFW. Geralmente dá uns 200 brancos X 7 negros. É um placar quase que o exato negativo da sociedade brasileira.

Mas não há, nunca houve nem vai haver, nenhuma relação entre moda e realidade, seja qual for. É inadequado "pedir" que haja. O desejo, motor básico da moda, está no impossível. Quem quiser que o compre.

A questão mais premente em relação a esse tema é outra e próxima: por que há tão poucos estilistas negros no Brasil? Isso dá bem mais pano pra manga (ainda mais na temporada de inverno hahaha).

Neo Zeitgeist





Domingo, Janeiro 13, 2008

Não gosto de poesia, ok? É o uso de palavras menos interessante para mim. A métrica, a rima e o aspecto visual são monótonos para mim. Essa rigidez formal é pouco libertária, ainda que haja poesia em que esses três aspectos não sejam respeitados, mas, por isso mesmo, funcionam como oposição a eles, de modo que eles ainda estão lá, sempre a reger as idéias.

Mas gosto quando poesia é acomapnhada de som e se transforma em música, é uma parceria irresistível.

Mas poesia no papel não. Gosto de narrativa, de personagem, de ação (mesmo que seja a mais estática inação), de história, de possibilidades infinitas, de ausência de regras, de conflito.

Ok?

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Dezembro 31, 2007

Minha vida acabou este ano. Não recebo mais convites para festas, o disco que saiu no começo de março encalhou e a filha da puta da gravadora disse que não podia fazer nada e que encerraria o meu contrato hoje.

Os paparazzi, que me infernizaram durante uns cinco anos na porta da minha casa, nos restaurantes aonde eu ia, nos shoppings, na praia, no caralho a quatro, agora sumiram. De vez em quando vem um fotógrafo iniciante pra tentar emplacar alguma pauta em um site vagabundo --lógico, que eu me escondo, coloco oclão, chapéu, tipo faço a famosa louca, ou a louca famosa, vai saber.

Sabe o que provocou tudo isso? Eu fiquei careta! Meninas, se droguem, se acabem em festas, vão dormir de manhã com uns dois caras, mais um labrador e uma piranha, bebam no café da manhã, dêem vexame no palco, cheirem "disfarçadas", saiam de casa sem calcinha _e mostre que está sem, claro_, mudem de namorado como quem muda de calcinha (hahaha, adoro), sejam lésbicas (mas não muito, veja a Ana Carolina; que horror a tática da moça), falem bobagens bombásticas uma ou duas vezes por mês (uma é melhor), façam sexo e "vaze" o vídeo na internet. Se vocês, cantoras jovens como eu, fizerem isso, vocês serão mais ricas, terão mais exposição (foda-se se é positiva ou negativa, sempre vai ter uma bicha louca que vai defendê-la dos "ataques e perseguições" dos jornalistas, e isso a fará ainda mais lembrada, idolatrada, admirada, desejada, motivo de piada e tudo mais) e serão mais felizes.

Não me venham com esse papinho babaca de que quer investir na carreira. Isso é o maior investimento que vocês podem fazer nas suas carreiras! A droga é bela, os escândalos são os novos álbuns, seu corpo é a sua voz. O resto não importa, a sua saúde não importa.

Mas a minha saúde vale mais do que tudo. Sem ela não poderia fazer o que fazia. Com ela de volta quase 100%, posso pensar melhor o que quero para mim. Em 2008, estarei saudável e no ostracismo; não se pode ter tudo. Ainda não sei o que é melhor, mas acredito que haja um equilíbrio entre o frenesi (frenesi? usei essa palavra?) e o sucesso.

Ou isso acontece, ou essas meninas que vivem desse "frenzy" eterno não conseguirão aproveitar toda a grana que ganham justamente sendo loucas. Quem sabe o ideal é representar uma louca e fingir que é prostituta-cantora. Aí você se preserva melhor. Mas não deixe que descubra! Sempre dê um jeito de dar um teco de verdade na frente de pelo menos três pessoas desconhecidas.

Feliz ano novo, meus amores. Eu amo vocês, que me amam também, só que acho que se esqueceram disso.

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Dezembro 11, 2007



O Led Zeppelin voltou ou os professores de Hogwarts montaram uma banda?

Expelliarmus Riddikulus!

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Dezembro 10, 2007

Adoro internauta que se humilha no comentário:

Muito bom! Obrigada por me dar a oportunidade de assistir este vídeo! Não tive condições de ir ao show, mas estou feliz em poder assistí-los através deste vídeo!
Bendito seja esta pessoa caridosa de proporcionar esta alegria!


Simata, que tal?

Isso estava em um vídeo do Police, não aqui neste blog, é evidente: não trabalhamos com opiniões alheias.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

Então as Spice Girls voltaram? Achei que era o show das Desperate Housewives hahahaha.

Neo Zeitgeist






Adogo essa miniconstituição da Venezuela! Por aí você vê a importância do país e a importância que o presidente dá ao país, não?

Mas o mais legal é que a caixa de fósforos vermelha na outra mão dele não é um brinde de um puteiro, é a quantidade de modificações que ele queria enfiar na Constituição! Ou seja, ele quer fazer um 69 na Carta Magna.

- A mi me gusta Chávez.
- Por que no te callas?

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Novembro 20, 2007

Por cristo! Mike Tyson de pantufas vermelhas, meias rosas e... algemas pink! Tudo combinando com os dizeres do macacão listrado (listras grossas, bem verão).

Eu não sei o que isso significa, mas a new rave chegou ao boxe.

E não dou um mês para o Tyson ser chamado para o Abravanation.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Novembro 19, 2007

QUE DROGA

"O Abadía acabou com a minha vida"




Poucas vezes eu vi alguém com a vida acabada posar sentada na mesa do seu escritório, com um quadro do Aldemir Martins na parede. Realmente, o desespero e a agonia estão por toda a parte, não?

"Meu movimento caiu 50%", disse a cirurgiã plástica de 51 anos e com 8 cirurgias pelo corpo.

Não se preocupe, meu bem, com essas duas páginas na Vejinha, você já pode dizer: "O Abadía acabou com a minha vida. Obrigada, Abadía!"

Neo Zeitgeist




11 são furtados em show de Ivete Sangalo

O técnico em informática Fabio Altea, 29, diz ter se sentido desamparado pela casa de shows. "Vou a shows de heavy metal desde 1994, e isso acontece comigo no Credicard Hall. É inacreditável."

Pra você ver. 13 anos de carreira como metaleiro e foi roubado justamente durante o Berimbau Metalizado. É inacreditável mesmo.

Segundo ele, os acusados não destoavam do restante do público. "Ela é loira e ele parecia um mauricinho."

Primeiro: defina loira. Segundo: "parecia um mauricinho". vc consegue ser mais vago?

Neo Zeitgeist





Quinta-feira, Novembro 15, 2007

NOTÍCIAS

Britânico é condenado por fazer sexo com bicicleta

Sorte dele que não era uma Cecizinha, porque aí ele seria condenado por pedofilia hahahahaha. Mas, pô, deixa o cara, tanta gente fissuarda numa magrela, né?

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Amy Winehouse é vaiada no primeiro show da turnê

A nêga tá foda. Deixou cair o microfone no chão e tudo. Ô, dona Winehouse, a senhora consegue colocar esse ninho de marimbondo marombado na sua cabeça e não consegue nem fazer um show? Acho que devia ter um videogame que é uma disputa entre Amy Winehouse e Lily Allen. Quem terminar o show em pé ganha. No Wii.

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Frank Aguiar é cotado para substituir Gil no Ministério da Cultura

Será que o argumento é "notória especialização"? Mas o Cãozinho dos Teclados disse que "quer curtir o mandato" de deputado. Ou seja, tem tudo pra ser ministro!

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Paris Hilton nega abraçar causa de elefantes bêbados

Por mais vaca que ela seja, é difícil abraçar um troço tão grande. Ainda mais de um bêbado.

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Angelina Jolie assina artigo na "Economist"

Uau! A notícia então é que ela escreve?

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Spice Girl Geri Halliwell define abdome com ioga e caminhada

Eu defino abdome assim: parte do corpo humano e dos mamíferos, situada entre o tórax e a pelve, que contém uma cavidade separada da cavidade torácica pelo diafragma e onde se aloja a maior parte dos aparelhos digestivo e geniturinário.

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Celine Dion lança novo álbum e volta à estrada

Tomara que seja atropelada por um elefante bêbado.

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João Bosco interpreta oito repertórios em oito shows

A polícia não descarta ameaça terrorista.

Neo Zeitgeist




Tenho uma idade curiosa. Posso ser "jovem" ou "aposentado" de acordo com o caderno do jornal. Em Esportes, sou velho, veterano, experiente e posso ter me aposentado e aberto uma empresa de palestras, uma escolinha qualquer ou simplesmente sumido.

Em Política (nacional e internacional), sou jovem se eu ocupar um cargo no executivo, legislativo ou judiciário. Também posso ser ousado ou fazer parte da "nova geração" de alguma coisa se estiver no caderno de Economia.

No caderno de Cultura é provável que não haja adjetivos relativos à minha idade, especialmente se eu for músico --posso fazer música "de velho" ou ser eu próprio tão jovem quanto meu suposto público de 20 e poucos anos. Se eu for escritor, chef ou artista plástico, posso ser tanto jovem como fazer parte de alguma "geração", mesmo que não seja "nova".

E é uma idade curiosa também para dados oficiais. Segundo o IBGE, estou incluído no grupo dos que possuem idade a partir dos 24 e no grupo que vai até os 49.

Na real, acho que nasci com a mesma idade de sempre.

Neo Zeitgeist




Então o placar está assim:

Björk 3 1/2 X LCD Soundsystem 3 (4).

Björk em Tóquio (98), Barcelona (03) e SP (07), com meio ponto ganho na cidade catalã com um pequeno show-surpresa. LCD Soundsystem em Paris (05), NY (07) e SP (07). Houve também um em SP (04), no qual, segundo relatos, estive presente, mas minha mente estava ocupadíssima no momento, de modo que não há registro do ocorrido em meu HD.

O melhor Björk foi em 2003, com harpa, tecno, máscara-franja negra e carrinho bate-bate.

O melhor LCD Soundsystem foi quase um empate entre NY (07) e SP (07), por serem shows parecidos. Mas, se em NY o público era de umas 500 pessoas, num espaço para 500, que realmente estavam a fim do show (em SP, o público era de pouco mais do que o dobro, num espaço para quase o triplo, mas a metade era de convidados que estavam lá porque era "de graça" e mais assistiam do que curtiam de fato), o que fez da experiência algo mais selvagem e intenso, além da pequena aventura ao entrar, em SP, havia os meus amigos: eu estava com "all my friends tonight".

Ganha pontos o fato de a banda ter feito o show do ano no ano em que lançou o disco do ano. Por isso e por mais, é a banda da década.

Neo Zeitgeist




Chamo de bom fogão aquela coisa sem frescura, sem muita necessidade de manual, com a qual se pode perder a paciência e fechar o forno com o pé por estar com o frango assado nas mãos. Aquele cujas medidas do forno permitem que as Sylvias Plaths em potencial se suicidem com toda a comodidade, sem que tudo se trave para não escapar gás. Que não precise apitar para nada e que os botões não saiam nas suas mãos a toda hora. Um fogão macho.

Nina Horta escreve tão bem quanto cozinha.

Neo Zeitgeist





Sábado, Novembro 10, 2007

OS IDIOTAS

Exatamente um ano depois da inauguração da Pacha em SP, fui a essa espécie de Daslu dançante. O mau gosto do lugar e do público é o mesmo. Os preços também são altos, o que serve, dizem os promotores e os freqüentadores, para "selecionar" o público. De fato, é uma eficaz seleção: só entram Os Idiotas, com maiúsculas, como VIPs de pulseirinha merecem.

É provável que você já tenha ido à Pacha, mas nunca tenha entrado em um matadouro. Antes de entrar no local propriamente dito, os bois ficam confinados entre grades em corredores estreitos o suficiente para mantê-los em fila indiana. Os olhares dos animais é de uma tristeza agônica, porque é notório que eles sabem que lá dentro não há boa coisa.

O semblante dos Idiotas que se aglomeram na entrada do local, confinados entre grades, porém não exatamente em fila indiana, é o oposto do dos bovinos. Há excitação, apreensão e expectativa. Primeiro por conseguir entrar, depois por conseguir entrar sem pagar. Os Idiotas sabem que lá dentro há coisa boa.

Por acaso fui com amigos que tinham ganho convites, então eu era VIP (que boiada!), o que me dava direito a entrar direto no El Cielo, recinto de nome ridículo destinado aos Idiotas, digamos, mais "privilegiados".

Fila para entrar, mais fila para "pegar a pulseirinha" _os bois já possuem uma espécie de pulseirinha, na verdade um brinco, antes mesmo de entrar no matadouro. Os Idiotas usam uma pulseirinha em que se lê MASCULINO. As Idiotas usam uma com FEMININO escrito. Essa informação seria dispensável se eles não fossem tão Idiotas.

O conceito de VIP prescinde de filas, mas não aqui. O conceito de rico não inclui mendigar, mas não aqui. Pior do que mendigo pobre é playboy mendigo: geralmente são homens que imploram por uma pulseirinha para funcionários.

Na fila VIP (uma contradição em termos), vi um segurança oferecer para um Idiota: "Faço R$ 200 de consumo pra você". O Idiota topou.

Então, uns 40 minutos depois, entramos na tal área VIP, o El Cielo, que tem estrutura semelhante à da área VIP da Itapemerim na rodoviária Tietê. Ganhamos um mojito, já que o rum Bacardi patrocinava a noite (e fomos obrigados a ver o morcego do logo da marca que aparecia sempre arreganhado no telão a noite toda). A pulseirinha nos dava um status importante naquele local, onde status social é uma questão bastante evidente.

Os Idiotas se vestem quase do mesmo jeito, é óbvio. Os caras deixam bem claro em suas camisetas em que lojas elas foram compradas, e, eventualmente, a cidade em que elas teoricamente foram compradas, como uma que vi: Emporio Armani MILANO. Mas boa parte dos caras usava Abercrombie & Fitch, uma marca de forte identidade gay, mas Os Idiotas pareciam não se importar muito com isso.

Eles se vestem iguais e também falam as mesmas coisas _e bem alto, como convém a um Idiota. Não era incomum ouvir gírias saídas de "Tropa de Elite" entre Os Idiotas. O amigo do Emporio Armani MILANO disse para a funcionária que se recusava a lhe dar a pulseirinha: "Zero-cinco, a senhora é uma fanfarrona". "Pede pra sair!" era outra gíria que se ouvia com certa freqüência.

As mulheres usavam saltos muito altos e cabelos tão lisos quanto longos. Como disse o meu amigo, se os cabelos de todas elas fossem tesourados e amarrados, daria para ir até a Lua com essa "teresa" capilar. Se os saltos de todas fossem cortados e enfileirados, daria para dar uma volta e meia na Terra.

O lugar é gigantesco. Não fossem a música alta e as luzes (não há nenhum lugar muito escuro nem estrobos alucinantes; é lugar para ver e ser visto), seria um imenso posto de gasolina de beira de estrada, como o Graal, com uma praça de alimentação e até um guichê de informações (!). O teto é decorado com imensos bojos de sutiã abertos, feitos de material translúcido branco, o que, certamente, é chamado por quem fez de "formas orgânicas", assim como são os enormes "lustres" de tecido. Enfim, a Pacha é um grande despropósito, como a Daslu.

Então entramos no Domo, como é chamada a pista de dança. Insuportável. Estava lotada de Idiotas que eram mais idiotas do que nunca: eles parecem ocupar mais espaço do que merecem e, de novo, não se importam com isso.

A pista é uma espécie de arena de rodeio, com arquibancadas com grades grossas e brancas em volta dela, para que os bois do chão não invadam a área do "público" que assiste, no caso, não invadam a área VIP.

Ficamos no alto, não exatamente o melhor lugar para se divertir nem "assistir" à pista, mas o mais viável para sobreviver. Então um Idiota aborda o meu amigo: "You are the Txemical Brothers?". É, não estava fácil.

Além dos R$ 100 para entrar, a "seleção" do público se dava também no interior da Pacha: Os Idiotas pagam R$ 9 por uma lata de Skol.

E a música? Bom, Os Idiotas não ligam muito pra isso, o lance é a azaração. E a música era bem ruim, apesar de haver uma dupla belga que faz ótimos remixes e que tem uma banda bacana, que, por sua vez, também faz bons remixes. Atração extra da noite era um baterista de uma banda de heavy metal que acompanharia com seu instrumento a dupla belga (ele tocou uns cinco minutos e não fez diferença).

Antes dessa dupla, chamada de 2 Many DJ's, tocou esse baterista (que se veste como se fosse de uma banda new rave) acompanhado de sua mulher, num projeto chamado Mixhell, que foi pior ainda do que os belgas. Durante a apresentação dessas duas atrações, Os Idiotas dançavam pouco, como notou o meu amigo. Não porque elas fossem ruins, mas porque a música é indiferente num local que cobra R$ 100 de entrada e R$ 9 a lata de cerveja.

Eu, Idiota por uma noite (pelo menos oficialmente hahaha), preferia ter entrado num matadouro a entrar na Pacha. Pelo menos lá, leva-se um tiro na testa logo na entrada e não é necessário lidar com todo o resto.

Neo Zeitgeist





Domingo, Novembro 04, 2007

DOIS LIXEIROS DE AMARELO

Por acaso, conversei com dois lixeiros (ou garis, mas deve haver um nome "anos 2000", tipo removedor de impurezas públicas), contratados de uma das empresas que prestam serviço para a prefeitura de SP. É sempre bom conversar com desconhecidos, contrariando o conselho materno.

Os nomes deles não perguntei, mas serão conhecidos aqui como o Da Vassoura, DV, e o Do Carrinho, DC (ainda que carrinho seja um nome pouco técnico). Primeiro: eles trabalham em dupla; um varre e o outro recolhe --sempre, me explicou o DC, o lixo que estiver "da guia da calçada pra cá". Quando trabalham, ambos têm de manter uma distância não muito grande entre si, um dos vários aspectos que os fiscais da empresa observam quando circulam de moto ou de carro --e muitos desses aspectos resultam em suspensão.

Segundo: eles trabalham seis horas por dia, seis dias por semana. Durante o plantão, quando aconteceu a conversa, o parceiro é aleatório, de acordo com a escala da empresa; nos demais dias, o parceiro é fixo. O plantão é sempre um domingo ou feriado. E há folga de um dia por plantão trabalhado.

No domingo em que encontrei DC e DV, eles cumpriam o horário das 8h às 14h na região da av. Paulista. E chovia. DC usava capa de chuva grossa e amarela, cor da empresa e fornecida por ela. DV usava um fino saco de lixo, também amarelo, que fazia as vezes de capa de chuva, e torcia para que nenhum fiscal passasse por ali, porque isso é outro dos aspectos pelos quais os lixeiros são multados (ou suspensos, de acordo com a gravidade do caso).

DC fez elogios contidos à empresa, que fornece uniforme "bom", mas que poderia ser melhor, como a própria capa de chuva com capuz, que, segundo ele, deveria ser mais longa e ir além da metade da canela. DV esqueceu a capa em algum armário e não pôde comprar uma capa de chuva própria (parece que isso é permitido, contanto que seja amarela) porque o "cartão do banco está bloqueado" e ele não pôde sacar dinheiro.

Pergunto quanto é o salário deles. R$ 500 mensais. "Tá bom", elogiou DC, acho que com pouco menos de 60 anos, cabelos grisalhos e pele vincada, "tem empresa por aí que paga muito menos". DV, 40 e poucos anos e me pareceu que de cabelos tingidos de castanho sob o boné amarelo, também não acha má a quantia, mas ressalva que "podia ser melhor".

Os fiscais da empresa de lixo são rígidos e conferem desde a eficiência da varrição, a conformidade do uniforme (uma das exigências é que "tem de ter o X", disse DC, ao se referir ao acessório verde-reflexivo que usam sobre a camisa) e o proceder no ofício até a mencionada distância entre as duplas.

Os fiscais são uma das preocupações cotidianas dos garis. A outra são os acidentes. "Quando tem canteiro no meio da avenida, é pior porque vem carro dos dois lados", disse DC. "Tem gente que entra com o carro na calçada." Atropelamentos não são raros. "Não acontece sempre, mas acontece." Quedas também "acontecem", e, tal o exército norte-americano, a empresa para qual trabalham considera a vítima culpada. "Querem saber se a bota [que a empresa fornece] não estava lisa, se o piso do caminhão estava com defeito, se a gente não prestou atenção", disse DV, que chama seu instrumento de trabalho de "bassoura" e fala mais alto que o necessário.

Quando um acidente acontece com um deles --e esse é um dos motivos de os lixeiros trabalharem em dois--, o outro tem de avisar imediatamente à empresa por meio do telefone, que carregam no bolso. (Muitos DJs de música eletrônica trabalham em dupla provavelmente por razões similares e mantêm sempre a mesma distância entre si.)

Sobre o tipo de lixo que recolhem: folhas e papéis, basicamente. O que é especialmente mais chato de recolher quando chove. Sacos com cocô de cachorro não são recolhidos por eles. "Tem gente que nos vê e já coloca o saco com cocô de bicho dentro do carrinho. Que é isso? Aqui é privada?", indigna-se DC.

Também não recolhem "lixo de prédio", identificados por sacos pretos nas lixeiras em frente aos edifícios. Também não podem recolher "lixo de bar". "Às vezes acontece de o dono do bar sair de dentro e trazer o saco de lixo pra gente levar. Não pode", afirmou DC, que é tão falante quanto DV, mas mais articulado.

Pergunto o que acontece quando há mais lixo a ser recolhido por eles do que a capacidade do carrinho, um recipente plástico retangular, da altura de uma criança de 9 anos, com duas rodas e uma alça. "Aí a gente tira o saco e deixa em lugares como aquele ali, ó [aponta para alguns sacos pretos de lixo encostados em um poste, pelo que entendi, lugar apropriado para isso]. Mas o nosso saco é amarelo, então outra equipe passa e recolhe só os amarelos", informa DC.

As duplas não trabalham sempre na mesma região mesmo em dias convencionais. Curioso por saber se em bairros mais ricos há mais ou menos sujeira ou lixo "melhor" do que em bairros mais pobres, DC me frustra e diz que "é tudo igual". Mas parece que há regiões mais "iguais" que outras. O bairro do Pacaembu, diz DC, é "terrível". "O pessoal respeita menos e tem muita árvore". Árvores, como se vê, não agradam a todos.

DV olha o relógio e avisa o companheiro de que precisam ir "porque o fiscal pode passar". "Mas está chovendo ainda. Vocês têm de trabalhar mesmo sob chuva?", pergunto. "[Quando há] Chuva mais forte, como estava quando a gente parou, não. Mas chuva assim, o fiscal pega". Chovia apenas um pouco menos, o suficiente para molhar bem os cabelos durante dois quarteirões.

E então foram-se os dois. DV "barreu" e agrupou folhas molhadas que estavam no asfalto. DC recolheu-as, apesar de estarem "da guia pra lá".

Neo Zeitgeist





Sábado, Novembro 03, 2007

O perturbador "No Country for Old Men" é tenso, violento e explosivo no limite do suportável. Os Coen fizeram um dos filmes do ano, e Javier Bardem, uma das atuações mais fodas.

E o sotaque capiraço de todos é tão peculiar à filmografia dos diretores que já cheira a sangue.

Então ao final da sessão três amigos discutiam se havia ou não havia "mensagem" no filme. Não houve consenso se havia tampouco qual seria. Quase sugeri a eles olharem no celular. Ali é certo que sempre há mensagem.

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Novembro 02, 2007

Um amigo não vê a hora de assistir a "Tropa de Elite". Não porque ele se interesse pela abordagem da polícia no filme nem por causa da atuação de Wagner Moura.

Ele só quer passar a entender as piadas.

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Outro amigo falou sobre um conhecido nosso: "O cara é maluco, manda email às 6h30. Quando não tem ninguém pelado na cama dele, ele está sempre trabalhando."

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O novo show da Björk é a releitura cênico-musical do casamento do Shrek: coro de sopros, decoração pagã e eis que surge a princesa Fiona.

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Por falar em Björk, suspeito que ela tenha emprestado o vestido que usou no show do Rio para o brega Brandon Flowers usar no pedestal do microfone no show do Killers.

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Por falar em Killers, a banda desobedece o ditado mais famoso da cidade de onde vieram: "What happens in Vegas stays in Vegas".

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A Mostra de Cinema de SP é um evento organizado por velhos (basta ver a identidade visual dos cartazes e os filmes selecionados) para velhos. Não que haja algo errado com isso, mas o Festival do Rio é bem mais vibrante.

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Quando haverá bons shows para mil pessoas em SP? Ou para sempre serei obrigado a dividir o espaço com 6.000, 10 mil, 20 mil, 30 mil, 60 mil pessoas para ver uma banda legal ao vivo? Um show para 500, mil, 1.500 pessoas é o ideal em termos de satisfação do público: a energia não se dissipa, e a experiência é mais intensa. Mas parece que aqui ninguém liga muito para isso. Então prefiro passar pelos seguranças de Cumbica.

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Aliás, é interessante que, até hoje, haja uma empolgação excessiva quando *qualquer* banda vem tocar no Brasil. Empolgação dos jornalistas (que se esmeram em divulgar antes e sem nenhum critério qual será a próxima banda a desembarcar aqui apenas pelo fetiche do "furo"), que contagia os leitores. E então esse show (ou, mais comumemnte, esse festival patrocinado por empresas de telefone, que agradecem pela divulgação "espontânea") se torna um evento realmente importante. Mesmo que seja do Phoenix, Juliette and The Licks ou Lily Allen. É quando São Paulo vira Uberlândia. Ou, vai ver, São Paulo é de fato a Uberlândia do mundo.

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Quando se tratam de publicações de música, todo mundo tem tanta opinião que parece que não existem mais os tais formadores de opinião. Seria ótimo se as opiniões não fossem sempre as mesmas.

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Este ano, cerca de 78 "divas" fizeram show em SP e uns 34 shows foram "incendiários". Por outro lado, apenas 12 artistas "exóticos" estiveram por aqui e só uns 9 fizeram "rock sem firulas".

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Sexo é bom, mas enche o saco.

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Setembro 21, 2007

A FOCA E O PALHAÇO

Soube do assunto pela primeira vez ontem e de modo inusitado. Um amigo escrevera após seu nome no msn: "considero encerradas as discussões sobre o drible da foca".

Isso não me disse nada, nunca tinha ouvido falar nesse drible (em termos animais, acho que só no da vaca. E no frango, que é o oposto de um drible), nem tinha idéia de que havia discussões sobre isso. Cogitei, por aproximação e proximidade, que a foca em questão fosse uma jornalista iniciante, mas, de qualquer modo, isso não me disse nada.

Eis que ligo a TV, praticamente um pequeno evento. Começa um programa chamado "entre", do qual não tinha conhecimento (tenho a impressão, agora, de que vivo em outro mundo). Achei simpático o nome, parecia convidar o telespectador, seja bem-vido, por aqui, entre. Engano. O programa se chama "entre" e, devido ao seu formato, percebi que o nome dele se chamava Entre Aspas. Ave maria...

E o programa, ao vivo, começou com a "polêmica" do drible da foca. Foram exibidas imagens do tal drible, e havia no estúdio duas pessoas (não se podem chamá-las de especialistas, né?), uma delas Daniel Piza (??), para comentar o tal drible e, incrível, a agressão à "foca" provocada por um jogador chamado Coelho e elogiada por um técnico chamado Leão.

Não era possível.

Metade dos "internautas" também achava que a agressão era justificada pelos motivos mais cretinos. A outra metade discordava disso, informou a apresentadora.

E então começam os argumentos: o futebol é um jogo tenso, não um espetáculo circense; é um "desrespeito" ao adversário; com tantos animais em jogo, literalmente, a história ganhava tintas de fábula; e por aí vai.

Fiquei um pouco pasmo com tudo isso. O fato de um jogador conduzir a bola na cabeça por alguns metros virou tema de discussões acaloradas. Aliás, a questão em si não era o tal drible; era se a porrada que ele recebeu era merecida ou não.

Confesso que isso me provoca um certo desconforto. Parece algo perigosamente surreal, coisa de ficção. Ou de Portugal, onde temas absolutamente desimportantes são temas de debates e artigos por semamas a fio.

Bom, se futebol fosse legal, se houvesse pessoas inteligentes e interessantes que o praticam e comentam, se fosse um esporte libertário (isso existe?), se questões conservadoras como respeito, honra e "amor à camisa" não fizessem parte do seu "core", talvez o cara que fez o tal drible pudesse ser elogiado, justamente por ter criado um drible novo ou, vá lá, por trazer de volta o espírito do "futebol moleque".

Mas não.

A discussão --que, por si só, já é inacreditável-- era se a "foca" deveria ser punida por isso, o que não faz nenhum sentido.

Assim como tem ares nonsense uma manifestação com que eu tive a infelicidade de topar na av. Paulista, em que alguns otários, com narizes de palhaço e faixas em que se liam "Respeito", pediam a saída do presidente do Senado. Por pouco não atropelei alguns desses palhaços --que eram mesmo, só que sem graça.

Custo a entender como um senador corrupto pode fazer com que pessoas se disponham a sair de casa como palhaços para "protestar" contra o sujeito. Ele deve achar, no mínimo, engraçado.

Também tenho dificuldades para compreender por que se discute se alguém deve ser agredido por causa de um drible no futebol.

Algo está muito fora de esquadro aí. E sinto o cheiro forte de reacionarismo e imbecilidade combinados, o que me dá náusea.

Sugiro ao tal jogador "foca" que entre em campo com um nariz de palhaço a partir de agora.
Ou não é isso?

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Setembro 14, 2007

BIKE

Jamais podia imaginar, antes de sair de casa, que um dos momentos mais legais das férias seria andar de bicicleta. Bom, nem nos meus sonhos mais selvagens poderia supor que andaria de bicicleta nas férias.

E foi delirante.

Primeiro porque foi inusitado, segundo porque foi a primeira vez que andei de bicicleta e ouvi música ao mesmo tempo, o que é extremamente prazeroso se o local é adequado pra isso.

Inesquecíveis foram os passeios pelo Tiergarten ouvindo Abba. "Voulez Vous", "Super Trouper", "Gimme! Gimme! Gimme!" são muito estimulantes nesse contexto. E aquele parque vazio, com aquelas árvores verdes e grandes, mata quase fechada, pontes sobre lagos, tudo era absolutamente irreal. E, de vez em quando, alguém pelado sobre o gramado.

E então fui em direção à Unter Der Linden. "All My Friends", do LCD Soundsystem, numa linha reta e larga em direção à Alexanderplatz. Depois de vários dias sem eles, cantava alto "where are my friends toniiiiiiiite". É possível que "all my friends" não soubessem o quanto eu sentia falta de todos eles ali. Ou melhor: eu queria que todos eles estivessem lá.

E então as férias ganharam outro aspecto com a minha amiga holandesa de duas rodas.

Danke, Françoise.

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Setembro 04, 2007

Aqui ficam todos os Remisturas. Enjoy.

Neo Zeitgeist





Quarta-feira, Agosto 15, 2007




Ouça aqui

Neo Zeitgeist





Domingo, Agosto 05, 2007

2 DE VODCA DE 2007

Houve uma noite na semana passada em que eu realmente gostaria de sair para beber, mas os meus amigos estavam sóbrios e assim gostariam de permanecer até o dia seguinte. Saco. Moro numa cidade relativamente provinciana, onde não se costuma sair sozinho para beber e onde também isso não é lá muito bem visto. Inferno. Então me resignei e fui dormir. Lúcido.

Sonhei que ia com um amigo ao Clash, casa noturna sem muito charme na cidade onde moro. Havia certa fila para entrar, mas meu amigo, supervip, já resmungava por que teria de esperar para entrar. Argumentei que meu nome não estava na lista (deve estar na boca de vários sapos, isso sim) e o convenci a esperar na fila dos mortais em vez de pedir para "chamar o fulano" e mendigar a entrada.

De repente o tal fulano aparece na entrada vip e todas as pessoas que estavam na nossa frente foram para essa entrada, uma vez que o fulano já estava lá e não era mais necessário "chamá-lo"; bastava mendigar mesmo. Ótimo.

Em dois segundos, estávamos, eu e o meu amigo, no caixa. Ele pagou a entrada com o seu cartão platinum gold master plus. Eu tinha esquecido a carteira e saquei o talão de cheques. Pedi três vodcas também. "São R$ 144." "Quanto? Por que tão caro?" "Porque você pediu vodca Wyborowa". "Então me dá Orloff." "São R$ 49,34". Melhor.

Comecei a preencher o cheque. No campo do valor escrevi "#49,34#49". Putz, errei. No cheque seguinte escrevi, no campo do valor por extenso, "Vinte e cinco mil reais". Caralho, errei de novo. Mais um. Tudo errado. Merda. Foram sete folhas erradas! Na última do meu telão, havia acertado o valor, escrevi-o certo, mas na data assinalei "2 de vodca de 2007". Puta merda! Errei de novo! "Paga pra mim porque os meus cheques acabaram". O meu amigo pagou e nós entramos.

Eu acordei e era 2 de vodca de 2007, o dia exato.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Julho 30, 2007

IDÉIA GENIAL

Aí o piloto de carros Mika Hakkinen vem ao Brasil e vai a um bar para "conscientizar sobre a relação entre bebida alcoólica e o ato de dirigir". Bom, ou ele vai a pé pra esse evento ou ele vai só tomar guaraná e frustrar o patrocinador Johnnie Walker hahaha.

Será que ele vai dizer pros bêbados: don't drive, man, keep walking?

Neo Zeitgeist




BASTA!

Adorei a nova campanha dos tucanos: Cansei. O vídeo mostra pessoas, super-indignadas, com uma cartolina que diz "Cansei de bala perdida", "Cansei do caos aéreo", "Cansei de empresários corruptores" e por aí vai.

Nunca vi uma campanha capaz de mobilizar tanta gente! É de matar de inveja os piqueteiros argentinos hahaha. Os tucanos são ótimos mesmo.

Aí vem o João Dória Junior e diz que a campanha não é contra o governo, é "cívica". Só se for campanha Honda Civic! Se você acredita que um almofadinha que vive de negócios em Campos do Jordão vai ser contra um governo de um metalúrgico analfabeto, você só pode estar louco.

Mas faltou uma gostosa, bem brasileira e bem indignadona, com um cartaz na bunda: "Cansei de ser sexy" hahahahaha. Sabe, está na hora de dar um basta (eu amo essa frase!).

E o melhor disso são os vídeos relacionados ao vídeo dessa campanha que aparecem no Youtube: só clipes do Cansei de Ser Sexy! hahaha.

Não, quer dizer, melhor do que tudo isso junto foi o protesto que aconteceu sábado passado no lugar onde o avião da TAM bateu: um monte de cartazes com "Queremos paz!", "Chega de violência!" hahahaha. Erraram tudo! Os caras têm cartazes default pra protesto, não importa o motivo, sempre é hora de "dar um basta à violência" hahahahaha. Só faltava ter gente indignada com a transposição do rio São Francisco.

Eu amo o Brasil. Ou melhor, eu amo Portugal, que colonizou o Brasil e deixou aqui essa overdose de altíssima auto-estima e nenhum complexo de inferioridade hahaha.

Neo Zeitgeist




PÊNDULO

Adimiro as residências que possuem relógio com pêndulo na parede. O tempo da casa ganha andamento; a casa ganha um coração que se ouve bem à noite. Ou, antes, é a respiração do lar que se torna audível quando todos dormem.

Por mais de 20 anos morei em uma casa com um relógio assim. De madeira escura nas laterais e laca branca de fundo, anos 70, pêndulo prateado, o relógio mostrava também a data, que mudava tal um painel de aeroporto. Ao fim de mês sim, mês não e também em fevereiro, meu pai ajustava-o.

A casa sem o relógio era uma casa morta, o coração tinha parado de bater e um vazio preencheu a sala. Mesmo que o motivo de o relógio ter parado tenha sido bom (mudança), o silêncio ao qual não estava acostumado trazia certa melancolia.

Mais portentoso era o espetacular carrilhão do meu avô. Um relógio de mesa escuro e ponteiros dourados que ficava numa sala onde ninguém freqüentava. Apesar de solitário, o relógio ditava o tempo da casa a cada meia hora. E às horas cheias soava uma introdução inesquecível e tantas badaladas quanto fosse o número de horas. Meia-dia era uma festa.

Minha casa precisa de um coração.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Julho 23, 2007

Berlim é a cidade da qual eu tenho mais músicas dos seus bairros. A ver:

- "Prenzlauerberg, Beirut
- "Kreuzberg", Bloc Party
- "Neuköln", David Bowie

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Julho 17, 2007

Eu até não acho mau assistir a atletas desconhecidos em esportes estranhos na TV. É tudo uma novidade.

O problema é a Rede Globo, dona das imagens, e, portanto dona do Pan, exibir apenas atletas desconhecidos e apenas atletas brasileiros que estão a chorar na tela. É bem desgradável.

Primeiro porque eles não ganham, daí o choro do perdedor, o que, em esporte, não interessa. Segundo porque o vencedor é uma grande incógnita! O que, em esporte, é só o que interessa!

Como os atletas brasileiros são pobres, há o "drama", a "emoção", recorte bastante discutível porque babaca. Que o sujeito tenha vindo do Mato Grosso, que ele tenha tido uma "infância difícil", que tivesse de que andar 50 km a pé para treinar, que não tivesse dinheiro, nunca, para comprar nada, isso não importa. E ele fez tudo isso para ganhar, sei lá, uma medalha de bronze ou ficar em quarto lugar. Bom, e daí? Quem ganhou, afinal? O melhor, mas isso você não fica sabendo.

Além disso, como a Globo precisa de audiência, a emissora tem de fazer com que o espectador contunue asssitindo a esses jogos, que, ao fim e ao cabo, não têm lá muita importância mundial. Para isso, ela quase que obriga o espectador a "torcer pelo Brasil", o que não faz muito sentido. Por que eu vou "torcer para o Brasil" no tae-kwon-do? Na ginástica artística? No badminton, por deus?! Nesse eu soube até que "o Brasil quebrou tabu" hahahahaha.

Como são muitos os brasileiros atletas perdedores em muitas modalidades, mesmo se quisesse, eu teria dificuldade para tocer pelo meu novo ídolo, porque são vários e têm nomes um pouco confusos.

A Globo deve ser uma das poucas emissoras do mundo que prioriza os atletas que não ganham. Poderia ser um novo viés de cobertura esportiva se não fosse por uma motivação babaca que é a busca da audiência por meio da patriotada tosca.

Sendo assim, prefiro não ver os "jogos", o que no Brasil, significa assistir a ginastas que perdem e choram. Ou, vai saber, talvez esse seja um novo tipo de modalidade criada pela Globo: o choro atlético.

E, sombra da Globo, os demais veículos, impressos inclusive, noticiam apenas o que acontece com os atletas brasileiros. Não há uma linha sobre americanos, canadenses e cubanos. É a cobertura mais aleijada de um evento esportivo que eu já vi.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Julho 16, 2007

O CÉU CHORA

No dia em que o sr. Nilo descansou, o céu derramou algumas lágrimas, talvez de alegria por receber um convidado tão ilustre. No dia em que o sr. Nilo chegou ao céu, o choro foi constante: um choro de boas-vindas discreto e elegante como o novo hóspede.

Não posso dizer que conheci o sr. Nilo, mas que convivi com ele por alguns anos, em almoços dominicais, em eventos familiares. Senhor tranqüilo e reservado, demorou algum tempo até que fosse rompido o tratamento de cordialidade mútuo e pudesse se estabelecer uma conversa para além das amenidades; a nossa timidez não era pequena.

Quando conversávamos, era uma alegria. Jazz, literatura, festivais de música, Frank Sinatra, ouvia com muito entusiasmo o que ele dizia e apreciava fascinado aquela biblioteca preciosa todas as vezes que o visitava.

Fiquei muito orgulhoso quando ele foi ao show de Matthew Herbert e sua big band por sugestão minha. Ali formou-se um laço. Fez observações pertinentes, muito educadas, sobre o que viu e ouviu (nunca houve um momento em que ele demonstrasse desapreço por algo, ele ponderava tudo de modo extremamente polido).

Se ele sabe, não fui eu que disse, mas ele e dona Martha me deram o mais lindo amor que eu já senti, a quem ele sempre chamava de "meu bem"...

Jornalista com valores nobres e raros, trasmitiu-os para as três filhas também jornalistas, o que lhe enchia de orgulho, eu sei.

Não o vi nos últimos anos, os piores da sua vida. Ainda não sei se foi melhor assim, mas assim foi. Hoje foi o primeiro dia em que fui a sua casa e ele não estava como costumava estar, mas, ainda assim, estava lá. A família reunida na sala, com o sr. Nilo, agora na mesa de centro, impresso no jornal onde trabalhou por quase 40 anos.

E estava também na elegância da Marília, no sorriso da Fernanda, no semblante da Mariana. O céu está felicíssimo hoje.

Neo Zeitgeist





Sexta-feira, Julho 13, 2007

TOP 10 CHATICE DOS 2000

1. Minimal.
Chato, chato, chato, boring as hell. Esnobe, pedante, ridículo. A cerveja fica mais cara e os saltos das mulheres ficam mais altos em lugares que tocam isso.

2. Emo.
Chato, mas mais aceitável se você escolher o viés do humor para encarar o cajal, o choro e a ausência de síntese.

3. Orkut.
Oh, my. Muita gente estúpida reunida, com fotos, vídeos e preferências reveladas demais.

4."O Senhor dos Anéis".
Uma história só com homens brancos e monstros é muito chata.

5. Emoticons.
É como o Cansei de Ser Sexy: é divertido uma vez, depois fica irritante, e volta a ficar divertido, só que menos...

6. Check-in no aeroporto.
O ideal seria que você embarcasse nu com uma sacola transparente. E você ainda vai fazer isso.

7. Reality show.
Eu faço o meu próprio todos os dias e é infinitamente mais legal.

8. Celular em shows.
OK, às vezes a iluminação das telas com o cantor ao fundo pode ser interessante. Só às vezes.

9. Flashmob.
Chato, mas pelo menos foi rapidinho.

10. Neo-analfabetismo.
Conferir, seguir e outros verbos ganharam outro significado: o errado.

Neo Zeitgeist





Segunda-feira, Julho 09, 2007

Madonna insiste em cantar "La Isla Bonita" em todos os shows que faz há mais de 20 anos. A melhor performance dessa música aconteceu sábado passado, em Londres, quando o incrível Eugene Hutz e Sergey Ryabtsev, da banda Gogol Bordello, um selvagem mash-up multicultural punk cigano, tocaram com ela. Mas eles não são romenos, como ela os apresentou, são ucraniano e russo, respectivamente...

Madonna e Gogol Bordello juntos é um encontro improvável, mas o resultado disso foi vibrante e agressivo, duas qualidades que "La Isla Bonita" nunca tinha tido. Sensacional.

Neo Zeitgeist





Terça-feira, Julho 03, 2007

Os melhores shows das férias:

1. LCD Soundsystem @ Studio B

(estou à esquerda hahaha)

2. Psychic TV @ Bowery Ballroom


3. Sunn O))) @ Sónar


4. !!! @ Bowery Ballroom


5. Black Devil Disco Club @ Sónar

6. Air @ Madison Square Garden


7. Devo @ Sónar


8. Electrelane @ Irving Plaza


9. Justice @ Sónar


10. Justin Timberlake @ Max-Schmeling Halle


11. Modest Mouse @ Postbanhof

Neo Zeitgeist




São Paulo, Quinta-feira, 20 de Maio de 1999

Chemical Brothers fazem remix de pessoas

MARCELO NEGROMONTE
da Redação


Absurdo! Não avisaram a ninguém que anteontem quase 6.000 pessoas passariam por uma experiência químico-sensorial que mudaria a maneira de como ouvem música. A terra arrasada, inóspita, assexuada, esse cenário de Mad Max que se tornou o pop tem uma destruidora trilha sonora em 1999: uma ode às sirenes. Uma música quase interativa, hedonista e coletiva, maléfica e psicodélica, rocker e... quem se importa com gêneros?

O laboratório ideal: Via Funchal, lugar fechado. Os ingredientes: Tom Rowlands e Ed Simons, os Chemical Brothers, os feiticeiros do mix eletro-psicodélico.

Os capetas alquimistas entortaram qualquer sinapse dos presentes no 1º Levi's Live, o primeiro show do resto de nossas vidas.

A experiência oxidante foi muito além; não era o som que era remixado, triturado, liquefeito, acidulado, explodido e implodido a todo instante; era cada um dos cobaias que desembolsou R$ 45 para entrar num parque de diversões que poderia se chamar A Fantástica Viagem pela Tabela Periódica.

"Hey Boy Hey Girl", o primeiro single de "Surrender", intima o passageiro a entrar no acelerador de partículas. As palavras do título da música pipocam nos três telões instalados no palco e uma batida hip hop poderosa dá início ao transe que parece não ter fim. "Here we go", diz, sarcástica, a música.

O mago Tom Rowlands parece despejar poções venenosas a cada tecla apertada, a cada botão girado -quem são esses caras que extraem sons oníricos de botões?

"Music: Response", também do vindouro "Surrender", remete a robôs setentistas, à ficção científica, que se faz presente e real. Kraftwerk é o primeiro nome que vem à mente -a essa altura começando a borbulhar, como num caldeirão-, mas é mais um ingrediente para a mistura. DJs vomitam toda a história do pop de uma vez só.
Todos pulam loucamente, o som (que som!), tão alto quanto perfeito, e as imagens lisérgicas e dementes anabolizam a experiência.

"Doesn't Matter" e "Chemical Beats" ficam mais ácida, mais densa. "Life Is Sweet" transforma a vida num doce ensurdecedor. "Private Psychedelic Reel" é gigante.

Nada pára. As imagens de santos, manchas disformes, alquimistas-duendes, cores em profusão, luzes esquizofrênicas, tudo parece epiléptico demais, apesar de certo progressivismo. A alma desaba em queda livre com a espetacular "Setting Sun". Todos com as mãos para o alto, o êxtase e o remix dos corpos são inevitáveis -os Brothers estavam apenas "working it out".

O cenário é tão desolador quanto apaixonante em "Leave Home". A música literalmente entra por um ouvido e sai pelo outro e assola qualquer coisa que ainda permaneça no cérebro.

Os Chemical Brothers, clássicos digitais, fazem de Marinetti mais atual do que nunca neste mundo de máquinas e sonhos. Em 1999, o discurso pop é ficcional, caótico e quase supérfluo, como a orelha nas costas do camundongo -e daí?

Neo Zeitgeist




São Paulo, terça, 19 de maio de 1998

Massive Attack

MARCELO NEGROMONTE
free-lance para a Folha


Bem-vindos ao lado escuro da Lua. O ataque massivo aos ouvidos e à mente se faz mais eficiente do que nunca em "Mezzanine", álbum claustrofóbico, aterrador e o mais denso do trio inglês de Bristol Massive Attack.

Essa sedutora mistura de beats de hip hop, dub, groove de soul, guitarras atmosféricas, melodias etéreas com baixo profundo, que é o trip hop, mudou de rumo depois de "Mezzanine".

O rebento levou quatro anos para nascer, depois de "Protection" (1994), e a espera pelo parto foi uma das mais adiadas e especuladas desde então. Cogitou-se um "OK Computer", do Radiohead, inteiro remixado pelos três no lugar deste "Mezzanine".

O terceiro álbum do trio formado por Grant Marshall (Daddy Gee), Robert Del Naja (3D) e Andrew Vowles (Mushroom, cogumelo em inglês) foi lançado em 20 de abril na Inglaterra e na terça-feira passada nos Estados Unidos. A gravadora Virgin promete colocá-lo nas prateleiras brasileiras esta semana (aqui, como sempre, há complicações injustificáveis no parto).

Mas o bebê já anda. Alcançou o primeiro lugar na Inglaterra, França e Austrália e sexto na Alemanha na semana em que veio ao mundo. Se os brasileiros tratarem bem de "Mezzanine", a gravadora dá esperanças de relançar seus irmãos "Blue Lines" (1991) e "Protection" em seguida.

Os primeiros sinais de que "Mezzanine" é um dos discos mais soturnos deste ano (e ainda não estamos nem na metade) é a primeira música, "Angel".

Um baixo poderosíssimo, guitarras ecoantes em overdose de dubs, clima pós-pós-Pink Floyd, aliados à voz fantasmagórica do reggaeman Horace Andy -cuja carreira mudou de direção depois de sua participação em "Blue Lines"-, fazem com que você, amedrontado, verifique se a porta de sua casa está de fato trancada. Porque a da sua mente foi completamente arrombada.

E os pioneiros do trip hop vão direto à parte mais desconhecida dela em "Risingson", single "extra-oficial", lançado em 97, em versão limitada, por conta da participação da banda no festival de Glastonbury.

Daddy Gee e 3D parecem dialogar, sussurrando, num lugar perdido e congelado, numa conspiração diabólica contra o bem, emoldurados por batidas sujas e ambiência surreal. "Nós viemos para mover sua alma/ e você como que desaparece ao fundo".

Ameaça cumprida -com vocais mais ameaçadores ainda- em "Inertia Creeps", que surge devagar e sobe num crescendo em espiral infinita e hipnótica. Devastadora, um dos pontos altos do disco.

"Teardrop", o primeiro single "oficial", é claustrofóbica, como o clipe, em que um bebê, antes de nascer, "dubla" a música cantada por Liz Fraser, do Cocteau Twins - que estava grávida ao gravar a canção. Sujeira estática de vinis se opõe à voz clara de Liz e às batidas secas, criando algo perturbador.

Horace Andy empresta a voz novamente em "Man Next Door", música que está mais para "Blue Lines" do que para "Protection". "Tenho que sair daqui,/ este não é um lugar para ficar", diz em meio a samples das guitarras de "10:15 Saturday Morning", do The Cure.

O Massive Attack sabe que cria o medo e abusa disso na faixa-título, para, em seguida, seduzir - e executar o golpe mortal-, em "Group Four", duas músicas em uma genial. Uma parede de guitarras surge na segunda parte com Liz cantando como um anjo malévolo. A tensão aumenta e seus limites são testados.

Volte a respirar, abra os olhos; a lobotomia foi bem-sucedida.

Neo Zeitgeist




São Paulo, Terça-feira, 10 de Agosto de 1999
FESTIVAL DULÔCO 99
Rap instaura paz, união, amor e diversão em SP

MARCELO NEGROMONTE
da Redação


São Paulo tomou um banho de hip hop no último fim-de-semana. E ficou com a alma mais preta, mais rica. O bem-sucedido festival Dulôco 99 elevou a tríade hip hop -musical, visual e corporal- ao panteão dos grandes eventos pop que o Brasil já presenciou. Foi uma enxurrada de black music, a cultura da rua se manifestando da maneira mais organizada, o underground emergindo civilizadamente.

Grandes nomes do rap mundial e brasileiro pisaram nos palcos dos Sesc Belenzinho e Itaquera (para ser bem-sucedido não é mister lugares caros) e deram uma aula de história da música negra. Só não foi quem não quis.

O turbilhão cultural Dulôco 99 começou na última sexta-feira, com um debate com os mestres Afrika Bambaataa e Grandmaster Flash no auditório do Sesc Belenzinho (região centro-leste paulistana), completamente lotado por um público interessado e esclarecido de mais de 260 pessoas.

Antes, uma observação: foi um festival de rap, em locais ditos não muito nobres, com a periferia como maior parte do público e... Alguém falou em violência? O estereótipo não passou disso: um clichê de desinformados. Não houve, nos três dias de festival e nas duas unidades do Sesc, um único distúrbio, de nenhuma natureza. Brigas, selvageria e agressões vêm, está provado, de festivais para a classe média branquinha.

Como disse o sr. "Sample", Grandmaster Flash: "O hip hop dá a liberdade de poder falar, com letras e música, sobre o que você quiser, inclusive violência". TC Slam, do Soul Sonic Force, foi além: "Somos "entertainers", não temos tempo de ser assassinos. Ou somos uma coisa ou outra".

A noite de sexta, com público menor que nos demais dias, foi o "avant-garde" do hip hop. Começou com o membro da Hemp Family carioca Black Alien enfumaçando raggamuffin e Cypress Hill.

O trio paulistano Nitro mais o DJ Nuts improvisaram bem com participação de Thaíde. O rapper de Chicago Common não emplacou com algumas presepadas e um show chatinho.

O bom da noite, que começava a esvaziar e esfriar, ficou com o original DJ Spooky.
De jazz, drum'n'bass a rap e ambient, DJ Spooky recebeu MCs brasileiros e do Soul Sonic Force. E ainda tocou contrabaixo enquanto discotecava. Quem terá a desfaçatez de enumerar os elementos do hip hop diante de DJ Spooky?

O sábado começou antes no Itaquera (a cerca de 40 minutos do centro de São Paulo) com shows de Consequência e De La Soul. O sol se punha por entre as árvores do parque do Carmo, crianças brincavam no escorregador do parquinho à esquerda do palco e, nele, o pulsante De La Soul entoava "Say No Go" -um final de tarde arrepiante, sem dúvida.

Ver o homem que criou o sample, Grandmaster Flash, no palco, esse show de um homem só (DJ e MC em um só), é uma aula de arqueologia -a que Mano Brown assistiu. Os Chemical Brothers seriam a de processamento de dados. A discotecagem artesanal, "old skull", é do tempo bom que não volta nunca mais. Mas voltou sábado no Belenzinho.

Entrou com "The Message" e engatou LL Cool J, B.I.G., Naughty by Nature, House of Pain. Chamou b-boys e "minas" b-girls ao palco com um painel de grafite ao fundo.
Uma verdadeira "block party" com um público de mais de de 2.000 pessoas.

Os veteranos Thaíde & DJ Hum empolgaram e convidaram ao palco uma das figuras lendárias do hip hop brasileiro, Nelson Triunfo, conhecido como o primeiro b-boy do país e a maior cabeleira do planeta. Destaque para a aveludada backing vocal Ieda Rios. Show soul.

Comentário de alguém da platéia: "Nossa, muito som para uma noite só." Ao lado, um grupo erguia um mini-system, levantado como um troféu.

Primeiro, Soul Sonic Force e, muito depois, Afrika Bambaataa, vestido como um Mobutu Sese Seko estilizado e com alma. Aí, foi uma festa, como prometeu. "Planet Rock" e "Unity" com b-girls e uma senhora "mutcho lôca", que quase roubou a cena, no palco. Funk, funk. "Renegades of Funk" e "Sex Machine" foram estupendas. A música negra não tem fronteiras: de drum'n'bass, funk carioca (potente), R&B suingado, electro-funk... Vamos lá, diga com quantos elementos se faz hip hop, "muthafucka".

No gelado domingo, Bambaataa, vestido como um príncipe africano, de oncinha, sem voz, repetiu a dose com mais "brazilian funk", dançarinos de break, sacudiu o Itaquera.

À tarde, workshops de DJ, batalha de MCs, campeonato de break, demonstração de grafite. A expressão do que pode ser feito na rua estava nos Sesc.

Ainda no Itaquera, uma das duplas que prometem: Xis e Dentinho, com o DJ King. Soul music pesada, rap consistente e carisma fácil. O público cantava em coro.

Ainda faltava o último dia. Posse Mente Zulu e Záfrica Brasil, dois nomes underground do rap paulistano, abriram o domingo no Belenzinho, seguidos por Jungle Brothers.

O trio alopradinho sacou a hip house "I'll House You", remixou "Busy Child", do Crystal Method, "Straight Out of the Jungle", "Because I Got It Like That" e ainda dançaram sob o tema de "Jeannie É um Gênio". "Put your hands in the air, São Paulo."

De La Soul encerrou o festival com um show atrapalhado por problemas no som, Contru, vizinhança e a polícia. Por isso, "Pony Ride", "Me Myself and I" e "A Rollerskating Named Saturday" estavam muito mais bem-humoradas no fim de tarde em Itaquera.
Dulôco 99 entrou para a história pelas atrações, diversidade, organização e iniciativa. Foi tudo uma questão de "peace, unity, love and having fun". O mundo pode acabar amanhã.

Neo Zeitgeist




São Paulo, terça, 5 de janeiro de 1999
SPIRITUALIZED

MARCELO NEGROMONTE
da Redação


Recomenda-se enfaticamente a segunda dose de Spiritualized, lançada recentemente, como complemento de "Ladies and Gentlemen We Are Floating in Space". Não que o remédio original tenha perdido suas propriedades, mas a dose de reforço se faz necessária para manter a alma sã.

O complemento medicamentoso chama-se "Royal Albert Hall October 10 1997 Live", portanto ao vivo, o que lhe confere certo frescor. É duplo, como convém a um complemento, e muito mais pesado, como convém a um reforço.

Se em "Ladies and Gentlemen" (97) a banda inglesa Spiritualized optou por desenvolver um "remédio" (o disco foi lançado na Inglaterra em uma embalagem de remédio com bula inclusa), neste ao vivo, em que a maioria dos ingredientes ativos (músicas) derivam de "Ladies", tudo é despojado -até demais-, exceto o som.

Psicodelia, distorções, sensualidade e o minimalismo hipnótico são captados em sua plenitude, tornando-se uma exceção à regra dos discos ao vivo (são produtos baratos de fazer e nada acrescentam à discografia de artistas -um placebo, enfim, diriam os cientistas mais ortodoxos).

Neopsicodelia, dream pop, noise pop, space rock, post-rock são alguns dos termos usados pela medicina moderna para tentar classificar essa banda derivada do Spacemen 3 e que hoje é uma das melhores bandas de rock do mundo.

Se não, vejamos: pela manhã recomenda-se a audição de "Electric Mainline" e "Electricity", ambas muito mais densas e propositalmente feitas para perturbar com uma saraivada de barulhos bem construídos e destruídos e reconstruídos. Suspensos ficam a respiração e os batimentos cardíacos.

À tarde, dez minutos de "I Think I'm in Love" ("acho que estou louco por você, provavelmente só aprendendo (...)/ acho que posso voar, provavelmente só caindo"), a melhor e mais bela canção do álbum, numa versão mais resistente do que a original e, por isso, imbatível. Pura sinfonia pop com coro arrepiante.

À noite, bem, à noite, não há recomendações explícitas quanto ao que ouvir.
Os dois discos podem ser ingeridos de uma vez, via oral ou intravenosa -a mais indicada. A conhecida versão gospel de "Oh Happy Day" é dilacerada por Jason Pierce, Sean Cook e Damon Reece, e o dia fica muito mais feliz. "Walking with Jesus" faz com que os sonhos virem realidade.

A combinação equilibrada, se é que se pode falar em equilíbrio com o Spiritualized, de sax, órgãos e guitarras de "No God Only Religion" abre o segundo CD com ode ao amor, ainda que instrumental.

E segue com "Broken Heart", linda, serena, plácida.
"Estou chorando o tempo todo/ e tenho que disfarçar com um sorriso/ e tenho que seguir em frente, por enquanto/ Deus eu tenho um coração partido", quase sussurra Pierce, que também ressalta que tem sonhos partidos. A cura está próxima.
O disco não tem contra-indicações, mas muitos efeitos colaterais.

Neo Zeitgeist





Domingo, Julho 01, 2007

São Paulo, terça, 8 de setembro de 1998
Tóquio vê o maior evento de rock do Japão

MARCELO NEGROMONTE
enviado especial a Tóquio


Desta vez foi em Tóquio. O maior festival de rock do Japão aconteceu nos dias 1º e 2 de agosto, sob um calor de 34ºC, muita lama, com o "skyline" da cidade ao fundo e 32 nomes do melhor do rock e pop japonês e mundial.

O 2º Fuji Rock Festival reuniu cerca de 70 mil pessoas, nos dois dias, às margens da baía de Tóquio, com atrações do peso de Beck, Prodigy, Björk, Sonic Youth, Goldie, Iggy Pop, Garbage, Nick Cave, Shonen Knife, Lo-Fidelity Allstars, Primal Scream, Ian Brown, Audio Active, Geodezik (ufa!), Asian Dub Foundation, Korn e outros vários, num evento bem-sucedido, diferente do de 97.

Um tufão destruiu tudo na primeira edição do festival, realizado próximo ao monte Fuji (a cerca de 40 minutos de Tóquio), cancelando o segundo dia do evento, que teria Massive Attack, Prodigy, Beck, Green Day e Lee "Scratch" Perry.
Chegaram a tocar, em 97, Foo Fighters, Red Hot Chili Peppers, Girls against Boys, Rage against the Machine e Denki Groove.

Sob calor e umidade quase insuportáveis, o primeiro dia do Fuji Rock deste ano teve uma atração extra: a lama. Como choveu na noite anterior, os 100 mil metros quadrados da área do festival estavam imersos num grande pântano, com lama que cobria os pés. Todo bom festival tem que ter lama.

O grande destaque desse dia foi, sem dúvida, o cantor norte-americano Beck, que tinha o público sob seu total controle. Subiu ao palco por volta das 18h, ajudado por um sol que se punha "como uma manteiga", como ele disse, com "Loser". Bastou o primeiro acorde da música para o público correr para perto do palco e pular loucamente, fazendo tremer o chão.

Na segunda música, "New Pollution", alguém da organização interrompeu o show para pedir que o público fosse mais para trás, pois estava esmagando os que estavam perto do palco. "Take back", disse Beck. Os japoneses nem esperaram o fim do pedido para, calmamente, dar alguns passos para trás.

Beck também foi o único a arrancar gargalhadas dos japoneses ao parodiar um dançarino de break e imitar um carrasco com chicote e camiseta encobrindo o rosto, em "Where It's At". Um show inesquecível com cenário brega (um pano verde com desenhos de plumas brancas), dois toca-discos, um microfone e carisma raro.

O Garbage sacudiu a baía de Tóquio, por volta das 13h, com um show pesado, apesar do calor inclemente. A música "Only Happy When It Rains" poucas vezes teve sentido tão real quanto lá.

A linda e ruiva Shirley Manson parecia estar sentindo os efeitos da temperatura, mas fez bonito em "Push It" e "Temptation Waits", do recém-lançado "Version 2.0".

Lindo de fato foi o Sonic Youth, às 14h, logo após o Garbage. Kim Gordon aparece de óculos escuros, vestido azul e uma guitarra com adesivo do Snoopy, provocando uma avalanche sonora com "Becuz", levando os japoneses a uma outra concepção de terremoto.

Em "Sunday", Gordon já é rainha impávida no palco, quase imóvel. O público estava entorpecido e aparvalhado com aquele terrorismo das guitarras.

Em pouco mais de uma hora de apresentação, a banda tocou apenas seis músicas -o que levou Thurston Moore a pedir desculpas pelo "pouco tempo" de show.

O final foi algo muito próximo do apocalipse sonoro. Um barulho ensurdecedor com Kim pisando, com sandália de dedo e desdém, a guitarra, Lee Ranaldo se esfregando com a guitarra nos amplificadores, e o baterista Steve Shelley incorporando a guitarra de Moore a sua bateria, espancando-a com as baquetas. Indescritível.

Apesar das 35 mil pessoas, da lama e do rock, o clima do primeiro dia do festival era o de um grande piquenique com música ao vivo, tamanha era a calma no local.

Os japoneses, mesmo com a venda de cerveja, não causaram nenhum distúrbio. E alguns norte-americanos estavam adorando. Cerca de 60 gigantescos mariners dos EUA foram contratados para fazer a segurança extra (além dos japoneses pouco encorpados que faziam a segurança normal) no festival. "Nós trabalhamos em uma empresa que faz segurança em shows no Japão", disse um deles sem se identificar. "Eles (os japoneses) são ótimos, não dão nenhum trabalho", afirmou ao findar um cachorro-quente.

Dezenas de tendas dividiam o espaço com público e vendiam desde brinquedos Lego, objetos de decoração e discos a roupas, comidas (africana, indiana, chinesa e, óbvio, japonesa) e bebidas.

Tudo muito caro para os padrões brasileiros. Uma lata de cerveja custava cerca de R$ 4,50, camisetas giravam em torno de R$ 36 e a garrafa de 200 ml de água, que era mais consumida que cerveja, R$ 3.
A tenda mais concorrida era a da megastore Virgin, entupida a qualquer hora. Os atrativos: dois ar-condicionados e um DJ.

Se no primeiro dia houve muita lama, no seguinte havia brita no lugar. A organização cobriu boa parte do local com brita, fazendo desaparecer qualquer vestígio de água e barro. O sol que fez nos dois dias também ajudou.

O grande nome do dia foi Prodigy, precedido pelo cool Primal Scream e Ian Brown (ex-vocalista dos Stone Roses), que entrou com um chapéu de camponês asiático e leque, no palco verde.

Com um público mais "rocker" que no dia anterior, o Fuji Rock abrigou o pesadíssimo Korn, que estava prestes a lançar o disco "Follow the Leader", a banda japonesa de hard rock Hotei, com covers do Led Zeppelin ao vivo, e os holandeses sub-Prodigy do Junkie XL, este no palco branco.

Os japoneses do Audio Active e, em seguida, a banda anglo-indiana Asian Dub Foundation, que mistura dub, drum'n'bass e rock, deram o tom contestador ao festival, com letras, som e atitudes rebeldes.

Diferentemente do que acontece na maioria dos festivais de rock, no Japão não havia nem cheiro de maconha nem qualquer comportamento que denotasse consumo de drogas. Os japoneses pareciam ter ido a um megafestival como se fossem a um programa qualquer de fim-de-semana. Sem exageros.

Exemplo disso era a fila indiana que se formava na calçada, após o término dos shows, no caminho para o metrô, sem que ninguém andasse pela rua -vazia.
Em 99, o Fuji Rock promete voltar aos pés do monte homônimo.

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Sábado, Junho 23, 2007

BEEN THERE



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Sexta-feira, Junho 22, 2007



Just amazing.

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Segunda-feira, Maio 07, 2007

São Paulo, sexta-feira, 18 de maio de 2001
Cybervovô

MARCELO NEGROMONTE
DA REDAÇÃO

O avô da música eletrônica não possui nenhum aparelho eletrônico em casa. Nada de rádio, televisão nem computador. "Não tenho nada disso. Quero ficar em paz", diz Karlheinz Stockhausen por telefone, o aparelho-exceção. Para tomar conhecimento do que acontece no mundo e em sua volta, o compositor lê jornais quando viaja de avião. "É o suficiente", diz de sua casa em Kürten, Alemanha, próxima de onde nasceu.
A partir dos anos 50, a música passou por transformações profundas, originadas pela curiosidade, inteligência e uma dose espantosa de intuição e determinação de um jovem de menos de 30 anos. Stockhausen foi o primeiro músico a criar uma peça em que unia -literal e artesanalmente- o tradicional e a vanguarda, utilizando a eletricidade como elemento musical.
Ele vive num universo próprio, criado por ele mesmo nos anos 50 e influente até hoje em toda música mundial, de Beatles, Sonic Youth e Brian Eno a Björk, Kraftwerk e Aphex Twin -o último citado por ele como um de seus seguidores preferidos.
"Gesang der Jünglinge" (Canção das Crianças, de 1956) foi a primeira peça da história a usar loops eletrônicos. A música tornava-se infinita.
Um dos pioneiros da música concreta e do serialismo (ou dodecafonismo), em que 12 notas em série, funcionando como células harmônicas, podiam ser combinadas, misturadas, transpostas, com mais ou menos velocidade, de trás para frente -tudo ao mesmo tempo-, Stockhausen é a atração musical do Carlton Arts, evento multimídia que acontece em São Paulo.
O compositor faz sua segunda "performance" no Brasil, nos dias 29 e 30 de junho, às 21h. Os ingressos estarão à venda a partir da próxima sexta em www.carltonarts.com.br.
Leia a seguir trechos da entrevista com um dos maiores compositores vivos do mundo, que, aos 72 anos, considera máquinas como integrantes da "natureza" e mantém a curiosidade, determinação e praticidade de quem ainda tem muito a fazer (sua obra "Licht" -luz-, iniciada em 1977, ainda não foi concluída). "Às vezes reajo como humano", diz sem maiores preocupações.



Folha - O sr. foi o primeiro músico a compor uma música eletrônica nos anos 50. Hoje a música eletrônica se tornou pop.
Karlheinz Stockhausen - Por que não? Eu comecei a música eletrônica em 1953 e anunciei que toda música de rádio deveria ser música eletrônica, porque era genuína música de rádio. Todas as outras músicas eram músicas tradicionais, que não foram compostas para serem transmitidas por rádio. Pop music e música de entretenimento seriam feitas para mídia eletrônica, é natural.


Folha - O sr. foi um dos criadores da música eletroacústica, em 1955, em que se fundiam músicas concreta (criada em disco ou fita magnética a partir de gravações de sons naturais) e eletrônica (que utiliza sons artificiais produzidos eletricamente). Isso era o futuro?
Stockhausen - Sim. Oh, sim. Meus antigos artigos, de 1952, 1953, previam exatamente isto: que toda mídia tradicional, ou instrumentos ou vozes, seriam apenas parte da música no futuro. E que o mainstream usaria produção eletrônica principalmente.


Folha - E o resultado disso é mais racional ou emotivo?
Stockhausen - Os dois. Não há contradição entre os dois. Se você ouve algo dentro de você, ou se você sente algo, você tem de usar o seu cérebro para fazê-lo funcionar. O cérebro é outra máquina.


Folha - O que o motiva a compor uma música? Como o sr. faz isso?
Stockhausen - Uma mistura de imaginação, intuição, visões de sons -o tempo todo- e fazendo o trabalho enquanto as idéias vêm. Tudo junto. É o trabalho em si que inspira o próximo passo sempre. E imaginação, que vem da experiência da vida toda, do sobreconsciente. E tudo junto resulta em música nova.


Folha - Quando o sr. acha que vai terminar "Licht"?
Stockhausen - Devo concluí-la antes de julho de 2005. A apresentação no ar deve acontecer em 1º de julho de 2005, mas ainda temos de achar o lugar ideal.


Folha - Um lugar específico?
Stockhausen - Nas casas de óperas não dá. Talvez duas cenas (a terceira e a quarta) possam ser apresentadas num palco de uma casa de ópera, mas, mesmo assim, precisaria de movimentações no auditório. As outras cenas não podem ser apresentadas nesse lugar, porque há muitas movimentações pelo público, projeções. Simplesmente é impossível.


Folha - Seu trabalho é direcionado a buscas de novos timbres aliadas ao desenvolvimento tecnológico. Isso não acaba tornando um universo muito fechado?
Stockhausen - Sim, certamente. Eu faço tudo isso por que eu tenho muita curiosidade. Eu me interesso o tempo todo por experimentar. E acho que muitas pessoas vão seguir isso.


Folha - A questão então não é ser popular, é tudo só por curiosidade?
Stockhausen - O problema é que a maioria das pessoas não têm tempo para acompanhar o desenvolvimento... Até agora eu tenho 289 trabalhos. São dias e dias de música. Se alguém estiver interessado em estudar a minha música, são necessários anos para isso.


Folha - Como serão as apresentações aqui? É só o sr. no palco?
Stockhausen - Ninguém no palco. Estarei no centro, no mixer. E é tudo escuro, só haverá um facho de luz para as pessoas que não gostam de escuro. Atrás do palco há uma pequena lua, mas é tudo. São concertos para as pessoas apenas ouvirem. Serão dois dias. No primeiro, apresentarei "Oktophonie" e "Kontakte"; no seguinte, "Hymnem", que dura quase duas horas.


Folha - O sr. é uma das maiores influências da música pop e eletrônica, de Sonic Youth a Kraftwerk...
Stockhausen - Sim, sim... Aliás, Karl Bartos [do Kraftwerk" foi o convidado especial para ler o texto do meu prêmio do Polar Prize [leia texto ao lado".


Folha - O sr. gosta de Kraftwerk?
Stockhausen - Sim, mas é muito simples! Eu falei isso para Bartos, e ele sabe que é ruim. Ele disse: "Bem, é a maneira que começamos, influenciado pelo seu trabalho". Mas eu esperava mais polifonia, mais mudanças ricas de estruturas, harmonias etc. É muito limitado em termos de qualidade musical. É uma coleção atmosférica de eventos, mas de envergadura muito, muito pequena.


Folha - Como o sr. reage quando ouve músicos contemporâneos, seja pop, rock ou eletrônico, utilizando alguma coisa criada pelo sr.?
Stockhausen - É normal. Todo o universo da música vem do passado. Tem sido sempre uma mistura de padrões ou clichês musicais, que se juntam a algo que possui algo a mais além dessa reunião preexistente. Mas algumas vezes eu reajo como um humano. Por exemplo, um músico alemão me mandou uma fita e disse que faria um mix de três composições minhas. É assim mesmo. Músicos usam material de músicos dos quais gostam. Mas eu não gosto disso para mim. Eu tomo muito cuidado de nunca usar nada que foi usado antes.


Folha - O sr. não usa samples?
Stockhausen - Samples da natureza, apenas. Sons de indústria, metrô... Em "Hymnem" há samples de todo os tipos de eventos: da China, África, fábricas, navios, jogos de futebol, aviões etc. [e hinos nacionais de alguns países". Deve ter sido a primeira composição com samples da história.

Neo Zeitgeist




05/07/2005 - 22h10
Escritor cult e ex-prostituto, JT LeRoy lança "Sarah" no Brasil; leia entrevista

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

Depois de conversar por mais de uma hora com o escritor JT LeRoy, é impossível chamá-lo de "ele". Principalmente se o autor estiver à paisana, como nunca aparece em público, sem perucas loiras nem óculos escuros. Em vez disso, expressivos olhos verdes e cabelos curtos assimétricos e descoloridos emolduravam um rosto angelical, apesar do buço púbere, que parece de menina.

Uma garota que já usou o pseudônimo de Terminator (Exterminador; o T de JT do seu nome) em textos no começo da carreira e que lança agora no Brasil "Sarah" (Geração Editorial), romance autobiográfico sobre um garoto que vive com a mãe, prostituta juvenil, e se torna, ele mesmo, uma putinha mirim de beira de estrada.

JT LeRoy chegou ao flat onde se hospedou em São Paulo com calças pretas, casaco preto de um tecido sintético enrugado, cujas lapelas eram unidas por um alfinete, com gola e punhos alcochoados. Ele vinha de um passeio pelo centro da cidade em que visitou a Catedral da Sé, conheceu a rua Direita, comeu salada e peixe num restaurante por quilo ("Uma delícia") e comprou um par de luvas de lycra cor da pele, sem as pontas dos dedos ("Não é esquisito? Adorei").

No dia seguinte (6/7), embarcaria para Parati, onde acontece a festa literária da cidade (Flip) para a qual não foi convidado. Apesar disso, iria até lá para passear e ver o show de Paulinho da Viola.

Minutos depois da entrevista, LeRoy iria de metrô à sessão de autógrafos de "Sarah" na Livraria da Vila, onde responderia a perguntas de leitores, e estava entusiasmado com o programa a seguir: visitar uma casa de forró no bairro de Pinheiros ("Oh, não, não vou dançar").

No dia anterior à entrevista, foi exibido em SP o filme "The Heart Is
Deceitful Above All Things", dirigido e protagonizado por Asia Argento, 29, filha do diretor italiano Dario Argento. Era do pai de Dario o chapéu negro de abas largas que o escritor usava durante a sessão, presente de Asia. "É o meu chapéu da sorte".

O filme é baseado no livro homônimo de LeRoy, escrito quando ele tinha 16 anos e publicado em 2001, após "Sarah" (de 2000), escrito quando ele tinha 20. Estão no filme Winona Ryder, Michael Pitt, Marilyn Manson, Peter Fonda e Ornella Muti.

Asia interpreta Sarah, a mãe de LeRoy (batizado de Jeremiah; o J do seu nome), uma prostituta bagaceira que atendia caminhoneiros no interior dos EUA. O filme mostra a infância de LeRoy, criado por pais adotivos até os quatro anos, quando voltou para a mãe _que lhe apresentou algumas drogas antes de ele perder os dentes de leite e lhe ensinou a catar comida do lixo para sobreviver_ até ser currado por um dos maridos eventuais dela. Então ele passou a ser criado pelos avós ultra-religiosos e conservadores. Mas a mãe resgatou o filho novamente e o levou para a estrada com ela.

A história de "Sarah" se dá quando ele (a essa altura "ela") conta as suas experiências de prostituta pelas boléias dos caminhões de West Virginia, Estado natal de LeRoy, a maioria acompanhadas de um osso de pênis de guaxinim pendurado no pescoço (que está na capa da edição brasilera, com o nome do autor impresso).

LeRoy usa o codinome da própria mãe, hoje já morta, para se prostituir. "Tenho dezenas de ossos de pênis de guaxinim em casa", diz o autor, relativamente animado ao mencionar o amuleto que ganhou do seu cafetão.

O parágrafo acima relata alguns dos aspectos peculiares do seu comportamento, que inclui andar sob disfarces, a lenda de que não dá entrevistas face a face _ambos por suposta timidez_ e a dúvida sobre o seu nome verdadeiro, entre muitos outros. Isso, aliado ao seu círculo de amigos como Madonna ("ela se alterna entre legal e fria comigo"), Gus Van Sant (autor da foto da capa de "Sarah") e Shirley Manson, vocalista do Garbage que fez a música "Cherry Lips (Go Baby Go!)" em sua homenagem _Cherry Lips era também seu "nome de guerra"_, entre outras celebridades, lhe confere certo status cult nos EUA.

Filho de pai teólogo _"não o conheço, não tenho muito a dizer dele"_, LeRoy mora hoje em San Francisco com um casal de ex-sem-teto e seu filho pequeno, grupo que ele chama de "família". É com essa dupla que o autor de "Sarah" tem a banda de rock Thistle (espinho), da qual ele é o pirncipal letrista.

Do rosto doce de LeRoy sai um fiapo de voz feminina no começo da conversa, e seus gestos são contidos acompanhados pelo seu olhar cabisbaixo. Ao final, ele está descontraído, falante, e diz ter adorado açaí, novidade brasileira, e detestado a festa de encerramento do São Paulo Fashion Week, a que fora na noite anterior, convidado pela colunista da "Folha" Erika Palomino. "Era muito esquisito, aquelas pessoas pareciam marionetes e o DJ era péssimo", disse.

Em tempo: Assim como o primeiro livro de LeRoy, "Sarah" será adaptado para o cinema pelo diretor Steven Shainberg, ainda sem data de lançamento.

Veja abaixo os principais trechos da conversa com o escritor que toma
hormônios femininos "há muito tempo", tem 25 anos e é capoerista há cinco.

Você acha que existe algum paralelo entre se prostituir e escrever?
JT LeRoy - Sim, existe (pausa). Acho que, em ambos os casos, existe uma busca. Seja de clientes, seja de editor (risos). E existe também uma excitação em encontrar algo que tenha algum resultado. Acho que o fato de ter passado um período nas ruas me deu uma "streetwise" (malícia das ruas) fundamental para o que escrevo.

Você não acha que andar disfarçado (peruca e óculos escuros) chama mais atenção do que andar à paisana? Qual o seu objetivo em aparecer em público dessa maneira?
JT LeRoy - Eu sempre tive vários disfarces, desde criança, quando a minha mãe me chamava de vários nomes, me vestia de mulher, dizia que eu era sua irmã etc. É como uma máscara protetora contra as outras pessoas, de quem geralmente "ouço" o que estão pensando a meu respeito. Quando eu era criança, as pessoas sempre me olhavam, mas por motivos diferentes dos que me olham agora. Não estava preparado para isso, ou melhor, não sabia como reagir a esse "assédio". É uma carcaça blindada, como a do Darth Vader.

Além disso, eu adoro brincar com roupas, usar o que tiver vontade e agir de acordo com a indumentária. Quando você se fantasia, você age, fala, se comporta e se senta de modo diferente. Gosto de ser fluido, de ter liberdade de ser uma coisa ou outra.

Ontem, por exemplo, fui a uma festa (de encerramento do São Paulo Fashion Week) com peruca e óculos escuros, e os fotógrafos começaram a me fotografar assim que me viram. E não tinham idéia de quem eu era! Se fosse um pedaço de pau com peruca, esse comportamento teria sido igual. Isso é divertido.

Depois da exibição do filme "The Heart Is Deceitful Above All Things" (dia 4/7, em SP), você estava muito nervoso, parecia quase em pânico por falar diante de uma platéia. Não era uma mise-en-scène que faz parte da sua publicidade?
JT LeRoy - Não, de fato estava nervoso, mas acho que estou melhorando em relação a isso. (risos)

Você disse em entrevistas que costuma transar com as pessoas que entrevista para publicações como "i-D", "Spin", "New York Press" etc. É verdade?
JT LeRoy - Hum... Ainda há muitas perguntas ou essa é a última? (risos). Bem, isso já rolou, mas acho que não foi importante, foi algo que simplesmente aconteceu naturalmente. Você nunca transou com os seus entrevistados?

Não. Mas isso leva à próxima pergunta: você ainda faz programas?
JT LeRoy - (Pausa) Bem... Acho que não vou responder a essa pergunta (faz um tipo envergonhado).

Até quando o que se passou na sua infância será determinante na sua criação literária?
JT LeRoy - Até daqui a seis meses? (risos). Não sei, mas entendo o que você quer dizer e não quero ficar conhecido apenas como o escritor que fala de sua infância conturbada e prostituída. Acho que nos primeiros livros havia uma grande necessidade de escrever o que se passou comigo, como se eu precisasse expelir aquela experiência para ficar mais tranqüilo.

Agora, depois de ter feito isso, sinceramente acho que é possível tratar de outros temas, haja vista que hoje em dia sinto que há tanto mais a fazer do que apenas escrever romances. E escrevo muito lentamente atualmente.

Mas, de qualquer forma, estou cada vez mais ficcional e gosto disso. É o que mantém o corpo feliz: "play" (brincar, representar).

Quando você começou a escrever e a ter contato com literatura?
JT LeRoy - O contato com literatura se deu quando morei com os meus avós (durante sete anos em períodos intercalados), que são muito religiosos. Então li a Bíblia, inteira, e inventava histórias a partir de Shakespeare, dos clássicos. Os livros não me diziam muito, mas algo do que há neles ficou em mim de certa maneira. E, quando estava com a minha mãe, eu sempre fazia anotações, escrevia pequenos textos. Ela odiava isso.

Depois, comecei a escrever por perscrição do meu psiquiatra, de quem ainda não tive alta. Ele sugeriu, como parte do tratamento que eu escrevesse o que se passava comigo para que houvesse continuidade do tratamento na sessão seguinte. Foi assim que escrevi "The Heart Is Deceitful Above All Things", uma coletânea de 11 textos.

O que você faz agora? Quando sai o seu próximo livro?
JT LeRoy - O próximo livro _ainda sem nome, quer dizer, há um nome provisório, mas é muito bobo, então prefiro não falar_ já está mais da metade escrito, deve sair no ano que vem, espero. Nele há ainda o personagem Cherry Vanilla (o seu alter-ego _ou ele próprio_ em "Sarah"). Pode-se dizer que é uma seqüência de "Sarah".

Também fiz o roteiro de um episódio de "Deadwood" (seriado do canal Fox), que deve ser exibido na próxima temporada. "Deadwood" não é o máximo? Meu Deus, como é bom! Ian McShane (ator da série) é o meu herói.

E tenho colaborado num filme de animação para crianças, com Todd Kessler (criador da animação "Blue's Clues", da Nickelodeon) e Rebecca Goldstein (da produtora No Hands Production). Além disso, estou trabalhando num documentário musical sobre (o artista plástico) Andy Warhol, que vai ser algo meio operístico, grandioso. Estou escrevendo as letras das músicas.

No filme de Asia Argento, o personagem Jeremiah aparece pregando a Bíblia na rua. Você chegou a fazer aquilo? Você acha que seria escritor se tivesse morado o tempo todo com os seus avós religiosos?
JT LeRoy - Sim, fiz aquilo quando criança. Asia fez uma adaptação muito literal do livro. E fiquei tão feliz quando o meu psiquiatra foi ver o filme, que eu disse a ele: "Está vendo? Era exatamente isso o que eu estava tentando dizer a você!".

É curioso, mas acho que seria um pastor se morasse com os meus avós (risos). Sério, há uma excitação em pregar que é muito legal.

Quais foram os autores que o influenciaram?
JT LeRoy - Mary Karr, que foi ótima e realmente fez críticas construtivas ao que escrevia, adoro "The Liar's Club". Além dela, há Dennis Cooper e Frank McCourt.

Você é conhecido por inventar muitas coisas a seu respeito. Quanto do que você falou nesta entrevista é real?
JT LeRoy - (Risos) Deixe-me pensar... Alguma coisa, muita coisa.

____________________
SARAH
» Autor: JT LeRoy
» Editora: Geração Editorial
» Preço : R$ 32 (160 págs.)

Neo Zeitgeist




26/12/2006 - 14h24
James Brown, o funk soul brother, esquenta ainda mais o inferno com seu groove

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

25 de dezembro se tornou uma data mais marcante ainda. Nesse dia nasceu um sujeito que definiu a civilização ocidental e morreram pelo menos dois gênios que definiram as artes do século 20: Charles Chaplin, em 1977, e James Brown, ontem.

Assim, "o homem que mais trabalha no show business" tirou férias. Mais do que isso, mais do que "Mr. Dynamite", mais do que o "Padrinho do Soul", mais do que o "Ministro do Super Heavy Funk", todos epítetos dados a si mesmo, James Brown era o funk em pessoa.

Cabelo inacreditável em forma de capacete, dentadura alvíssima, roupas acetinadas e extravagantes e aquele suor constante que umidificava seu rosto, resultado do mais puro sexo que a música já experimentou em cima de um palco. E o sexo que mr. Brown praticava fora dele era tão selvagem quanto a sua música; as moças que apanharam dele que o digam.

As pedras fundamentais do funk, soul, r&b e, por transubstanciação, do hip hop anos depois, "Sex Machine", "Hot Pants", "I Got You (I Feel Good)", "Cold Sweat", "I Got Ants in My Pants" (bastariam os nomes dessas músicas para figurarem numa lista de melhores do pop), além da porrada anti-racista "Say It Loud - I'm Black and I'm Proud" (em que crianças brancas e orientais cantam o refrão), rolam 40 anos depois com o mesmo viço. Bem, clássicos são exatamente isso. Ou, como ele imodestamente disse em 1990, "estou sempre 25 anos à frente do meu tempo".

A capa de cetim que usava nos shows era só um dos aspectos da africanidade de Brown. Ele era o chefe de uma tribo que "aprendeu tudo que ele ensinou -mas ele não ensinou tudo o que sabia", como escrevera em sua autobiografia. A complexidade negra teve poucos tradutores tão viscerais como James Brown.

Apesar de dar voz (rouca, improvisada, genial) aos negros numa época em que os negros começavam a ganhar voz (e, é claro, ganhava eco entre os brancos), Brown era ambíguo politicamente e conservador em relação aos membros de sua banda, que eram só menos maltratados do que as mulheres que se deitavam com o Funk Soul Brother.

Em 1968, ele cantava alto que era negro e tinha orgulho disso. Anos mais tarde apoiava a reeleição do republicano Richard Nixon. Da banda que comandava com cetro de ferro, Brown chegava a cobrar multa por um sapato menos engraxado do que o aceitável --por ele, o homem que brilhava literalmente da cabeça aos pés. Pergunte a Maceo Parker e a Bootsy Collins.

E Brown dançava. Como ninguém. Talvez como o Diabo. Michael Jackson e seu "moonwalk" são tributários dos rodopios, parcerias com o pedestal do microfone e abertura de pernas, dignos de figurarem em "calças quentes". Mick Jagger, Prince e todos esses "Justin Timbalands" dos anos 2000 também só existem como tais porque antes houve Brown.

Como se trata do pai do funk (sujo, fedorento em sua acepção pré-Brown), o Mr. Dynamite não teve uma vida limpinha, como, digamos, o pai de um gênero mais comportado como a bossa nova. James Brown era mau, e foi mau até o fim. Criado na infância num puteiro da Georgia, o menino teve problemas com a polícia desde então (por causa de drogas, roubos, armas etc.) e até 2004, quando foi fichado por violência doméstica --"It's a Man's Man's Man's World", já havia avisado.

Enfim, desde ontem o gênio do funk, o padrinho do soul, o "boss" do ritmo e do blues está, espero, não no céu, mas no inferno que ele ajudou a materializar aqui na Terra: quente, sexy, rico e certamente acompanhado de metais endiabrados (ops!). Porque o céu deve ser um tédio para Brown, e o groove mora perto dos malfeitores para sempre. Amém.

Neo Zeitgeist




22/07/2006 - 12h46
Metrô de Moscou é bom, bonito e barato

MARCELO NEGROMONTE
em Moscou, Rússia

Por apenas 15 rublos (cerca de R$ 1,20), o subterrâneo de Moscou é seu. O preço do bilhete do metrô dá direito a um eficiente deslocamento pela capital da Rússia e, muitas vezes, a um passeio por plataformas de estações de uma beleza inusual para espaços onde se permanece pouco _uns 90 segundos. A pequena aventura que, inevitavelmente, é chegar ao destino está incluída no pacote.

Construído durante o governo de Joseph Stálin, em 1935, o metrô de Moscou é um dos mais freqüentados do mundo (uns 8 milhões de pessoas sobem e descem dos vagões por dia, numa cidade de pouco mais de 10 milhões) e tem 171 estações, numa rede de 12 linhas. Algumas estações construídas durante a Segunda Guerra Mundial ou que passam sob o rio Moscou são profundas e foram planejadas para serem abrigos seguros em caso de bombardeio.

Sob o regime de Stálin, entre os anos 30 e 50, surgiram as estações mais grandiosas, com lustres suntuosos e decoração palaciana. Paradoxalmente, em todas elas, a ideologia da revolução comunista está presente, seja na quase onipresença da figura do ditador, seja nos afrescos e estátuas que remetem ao trabalhador, sempre em ação no seu ofício ou claramente feliz. É o luxo para todos à maneira do realismo soviético, isto é, opulência severa.

As estações construídas sob os governos de Nikita Kruschev e Leonid Brezhnev, entre os anos 50 e 70, ganharam ares mais austeros, com iluminação e decoração bem mais simples, apenas com azulejos e colunas cujas formas e cores as diferenciavam. Dos anos 80 para cá, as novas estações voltaram a ser mais extravagantes e arrojadas.

Aliás, austeridade é uma palavra bastante apropriada não só ao metrô, mas ao país ainda hoje. No metrô, o rigor começa do lado de fora das estações, geralmente construções de cimento de cores mortas, com o nome do local incrustado no topo delas, o que contrasta com o que há no interior de algumas delas. As bilheterias são franciscanas.

Então você começa a jornada. Mas antes você pode literalmente dar com a porta de entrada na cara se não estiver atento. Especialmente em Moscou, é quase um sinal de fraqueza segurar a porta para o próximo que vem atrás, gentileza universal dispensada aqui. OK, entre e mergulhe fundo.

Todas as estações, limpas e quase livres de pichação e publicidade, têm o mesmo desenho básico: escadas rolantes estreitas e longuíssimas (a maior é da estação Park Pobedy, com mais de 120 metros) que desembocam na plataforma de embarque, um corredor ladeado pelos trens, cada um em sua direção.

Como os trens passam, em média, a cada 90 segundos nos dias de semana (eficiência total), é comum passar mais tempo na escada em direção a eles do que a esperá-los na plataforma. Por exemplo, na estação VDNKh, são necessários 2 minutos e 15 segundos para vencer a íngreme escada rolante.

Na plataforma, a dúvida: qual trem pegar, o da direita ou o da esquerda? A programação visual das placas de informação do metrô, todas apenas em cirílico, é tão sóbria e suscinta que quase as deixa desapercebidas _especialmente para quem não domina o russo.

Iluminadas por lâmpadas fluorescentes por trás, as placas se dividem em duas: todas as estações da linha, a partir da estação em que você está, é listada, uma ao lado da outra; uma parte apontada para a direita e a outra para a esquerda. Depois de algum tempo conferindo o mapa (que você não encontra em nenhuma estação), você opta por um dos lados.

Às vezes acontece de se tomar o vagão na direção oposta, natural. Você percebe isso de duas maneiras. A mais óbvia é que a estação seguinte não era a que você esperava. A outra, mais sutil, é a voz do sistema de som do vagão que informa a próxima estação: se for masculina, o trem vai em direção ao centro (ou "ao trabalho"); feminina, na direção contrária (ou "para casa"). Na linha circular, a voz masculina soa nos vagões que trafegam no sentido horário, e a feminina, no anti-horário.

Mas por que chegar ao destino tão rápido? Perca-se embaixo da terra e admire as estações que surgem ao final das gigantes escadas rolantes. Depois você volta.

Neo Zeitgeist




21/04/2006 - 21h15
Caso Márcia X: Museu deveria ser território livre do alcance de qualquer Igreja

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Cinema

A proibição de qualquer manifestação por meio da arte é inócua. Não apenas o impedimento provoca uma exposição exacerbada daquilo que se pretendia eliminar, como os seus praticantes, cegos pela ignorância, são incapazes de perceber o fato.

O Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro abriga até o dia 30 a mostra "Erotica - Os Sentidos na Arte". Nesse evento estava a obra "Desenhando em Terços", de Márcia X (1959-2005) _um sobrenome que sugere a piada de ter sido também ele censurado_, retirado esta semana devido a "centenas de reclamações", segundo a direção do CCBB. Pesa na decisão também o fato de a organização católica Opus Christi ter entrado na Justiça por causa da obra. Esse grupo considera a obra "blasfema" e "agressiva à fé católica".

A "blasfêmia": dois terços dispostos em forma de pênis que resultam numa cruz _ou num X.

O tal Opus Christi quer mais. Vai pedir na Justiça a retirada de um quadro sem título, da mesma mostra do CCBB, de autoria de Alfredo Nicolaiewsky, em que são Jorge está ao lado de um "nu masculino".

Quase na segunda década do século 21, a Igreja Católica, por meio de uma obscura facção reacionária, continua agindo como se ainda fosse o século 14, quando a política vigente da instituição era a selvagem Inquisição _expediente de que a própria Igreja hoje se envergonha.

Duas discussões surgem aqui. A primeira é que a "fé católica" está fora do âmbito religioso no caso em questão, ainda que seja explicitamente referente a ela. Não se trata de uma profanação de um altar de igreja. O museu é por definição território livre _de tudo e de todos. Portanto ocorre uma manifestação que não diz respeito aos valores sacros, mas ao que eles representam numa cultura católica (por enquanto) como a brasileira _e isso vai além do alcance da Igreja.

O que está no espaço expositivo de um museu, "templo das Musas", deveria ser tratado com a mesma reverência que qualquer obra que integra o ambiente de uma igreja porque há motivos para que esse ou aquele objeto esteja lá _e esteja disposto da maneira em que está. Não consta que tenha havido censura externa de nada do que a Igreja exiba em seus templos. Por que a violência do caso Márcia X?

A segunda questão é o direito de expressão. Isso é pedra fundamental da democracia. Não se pode aceitar tudo de todos, é saudável haver abordagens divergentes da "oficial"; é iluminador, acima de tudo.

Por fim, há o fato de nem todos serem católicos nem acreditarem em Deus, e essa pluralidade está sendo "agredida", para usar o mesmo termo do grupo. Santa ignorância.

Neo Zeitgeist




16/06/2006 - 16h01
Dupla sueca The Knife congela Sónar com mistério no melhor show do primeiro dia

MARCELO NEGROMONTE
em Barcelona, Espanha

O melhor show do primeiro dia do Sónar não teve rosto. Vestida com macacões e balaclava (espécie de gorro que cobre toda a cabeça) pretos, a dupla The Knife, formada pelos irmãos suecos Olof Dreijer e Karin Dreijer Andersson, se apresentou apenas com os olhos, nariz, boca e orelhas à mostra.

Assim como Daft Punk, Artist Unknown e o rapper MF Doom, The Knife esconde a commodity mais valiosa do showbiz e integra o grupo radical de artistas partidários do lema "o que importa é o som".

No palco, grafismos e imagens fluidas eram estampadas num anteparo translúcido, posicionado entre o público e a dupla. Ao fundo, outro telão exibia imagens diferentes, às vezes concomitantemente.

No show de uma hora de duração, o Knife mostrou músicas do álbum recém-lançado "Silent Shout", como a faixa-título, numa versão poderosa, com baixo sintetizado a vibrar o subsolo do Centro de Cultura Catalã de Barcelona e com imagens do clipe da música no telão translúcido. Foi a música mais dançante do espetáculo.

"We Share Our Mother's Health", "Neverland" e "Na Na Na", também de "Silent Shout", ganharam mais reverência e seriedade do que no álbum. A voz de Karin era o som de um espectro algo doente, perdido numa floresta de árvores negras no inverno.

Com uma sonoridade oitentista, calcada em sintetizadores e bateria eletrônica, mas completamente remodelada para esta década, The Knife levou, com a ajuda de luzes frias e pequenas torres de lâmpadas coloridas, um clima de mistério congelante e sedutor ao quente Sónar. O curto concerto foi assustadoramente bom.

Jake
Outro bom show no fraco primeiro dia do evento em Barcelona foi o do rapper norte-americano Jake, um sardônico Louis Austen do hip hop. Sujeito barbudo e gordo que se apresenta com a camisa aberta a balançar a pança, Jake cantou sobre bases programadas e levou o público a destruir as almofadas da patrocinadora Vodafone e a jogar as espumas coloridas para o alto no final da apresentação. Jake encerrou o show com uma cover dos Monkees.

Shit and Shine
O grupo britânico Shit and Shine, além de ter esse nome ótimo, foi outro bom destaque da quinta no Sónar. Formado por quatro (!) bateristas e dois baixistas (um deles também programador), o Shit and Shine fez um show de praticamente uma música só. Uma espécie de kraut rock superdistorcido e propositalmente catártico, marcado pelas batidas marciais das baterias --uma delas, que ficava à frente, na posição que seria a do vocalista, era tocada por uma mulher que se parecia com a menina do filme "O Grito", com longos cabelos a cobrir o rosto. Parece que em 2006 o negócio é esconder a cara atrás de barulhos.

Neo Zeitgeist




18/06/2006 - 12h53
Festival espanhol Sónar ficou mais pop em sua 13ª edição

MARCELO NEGROMONTE
em Barcelona, Espanha

Na sua 13ª edição, o Sónar foi menos Sónar. O Festival Internacional de Música Avançada e Arte Multimídia de Barcelona, conhecido por apresentar atrações de vanguarda, ficou mais pop. Lado bom: estava mais divertido. Lado não tão bom: tornou-se mais parecido com qualquer grande festival europeu.

Claro que houve atrações experimentais, como os japoneses ensandecidos (no Sónar, isso foi quase um pleonasmo) Doravideo e Tucker, o elegante grupo Circlesquare e a bem-humorada Modified Toy Orchestra, mas os shows da veterana banda disco Chic e dos debochados Scissor Sisters, além do cha-cha-cha de Señor Coconut and His Orchestra deram aquilo de que o público --qualquer público de qualquer festival-- mais gosta: uma festa-baile daquelas.

O Chic, liderado pelo guitarrista e produtor Nile Rodgers, tocou uma avalanche de hits da discoteca, numa apresentaçao longe do melancólico ou deprimente, o que geralmente acontece quando bandas de 30 anos de carreira ainda tocam músicas de quando se tornaram conhecidas.

"Everybody Dance", "Le Freak" (com inserção de "Rappers Delight", do Sugarhill Gang, que sampleou trecho da música), "Good Times", "I'm Coming Out", "Dance, Dance, Dance (Yowsah, Yowsah, Yowsah)", "Upside Down", "We Are Family" foram algumas das músicas que todo mundo conhece apresentadas com classe e suingue no show da noite de sexta passada. Destaque para a o desempenho da vocalista de tranças vermelhas Sylver Logan Sharp. A tal "música avançada" deu uns passinhos -bem ensaiados, aliás-- para o lado e abriu espaço para o entretenimento dançante.

Na tarde da sexta, os anos 70 estiveram no ar com os roqueiros revisionistas Scissor Sisters, que fizeram um excelente show surpresa no palco principal da quente tarde de sexta.

Na programação do festival, a banda, que lança disco novo em setembro, aparecia com o sugestivo nome de White Diet, mais uma piada desse grupo devasso que traz de volta o rock com calças justas de lamê e falsete nos vocais.

Gratamente surpreendido, o público dançou e cantou bravamente a popular versão de "Comfortably Numb" e "Filthy Gorgeous", uma "homenagem" aos bigodes masculinos, que "graças a Deus estão na moda de novo", comemorou a vocalista Ana Matronic.

E o Señor Coconut, com seu "conjunto", sobriamente vestido de paletó e gravata, proporcionou um belo fim de tarde desse último fim de semana antes do verão, com versões latinas de "We Are the Robots", "Showroom Dummies", ambas do Kraftwerk, e "Smooth Operator", de Sade. Fiesta, fiesta!

Igualmente memoráveis foram as performances de Jimmy Edgar, Goldfrapp (pop classudo), Circlesquare, Modeselektor (brutal, espetacular), dos DJs Diplo e A-Trak (Guns´n Roses com funk carioca, MIA com Beatles), Hot Chip (disco punk fofo), The MFA e do "poeta do reggae" Linton Kwesi Johnson.

Veja abaixo os destaques dos três dias do Sónar 2006, encerrado ontem (17) em Barcelona.

Quinta, 15

The Knife foi o nome do dia. A dupla de irmãos suecos congelou o Sónar num show poderoso e sombrio (leia mais). Kraut rock distorcido, contorcido e retorcido ficou a cargo da banda Shit and Shine, com quatro bateristas e dois baixistas. O grupo inglês Tunng levou mais tranquilidade com sua folktrônica ao Sónar Dôme, palco coberto na frente do Museu de Arte Contemporânea de Barcelona. Antes dele, o rapper fanfarrão Jake balançou sua pança norte-americana com músicas do seu disco "The Rapper".

À noite, no Auditori, sede da orquestra sinfônica da cidade, o japonês Ryuichi Sakamoto e o finladês Alva Noto apresentaram o projeto minimalista "Insen".

Sexta, 16

O show surpresa do Scissors Sisters, a surpresa do show do Chic e Señor Coconut botaram todos a bailar. O trio nova-iorquino Liars, com membros vestidos com roupas femininas (à la New York Dolls), levou crueza punk e violência sonora ao palco. Em seguida, Circlesquare, do canadense Jeremy Shaw, apresentou músicas do álbum "Fight Sounds", com banda, glitches elegantes e eletrônica intimista.

O baterista japonês Doravideo combinou imagens, samples e muito barulho numa performance curiosa. Ele toca bateria sobre bases pré-programadas em sintonia com imagens de vídeo que ele seleciona na hora. Samples de "Blue Monday", do New Order, imagens de Britney Spears, George Bush, do primeiro-ministro do Japão, de filmes pornô e de espetáculos tradicionais nipônicos formavam uma salada niilista de resultado vigoroso.

O quarteto de DJs franceses Birdy Nam Nam encerrou a parte diurna, com versatilidade e criatividade e nada de virtuosisimo com scratches (ainda bem).

À noite, a banda Chic fez o que fez e foi antecedida pelo "beatbox humano" Rhazel, um dos convidados de Björk para o seu disco "Medúlla". Dono de uma técnica impressionante, ele canta e faz os sons de bateria, baixo e mais instrumentos, ao mesmo tempo, só com a voz. OK, mas mais do que dois minutos disso é bem chato: pra que isso, afinal?

Ainda no palco principal, depois do Chic, veio Jimmy Edgar. Visivelmente nervoso, o sujeito de 22 anos e unhas pretas, comandava teclas, teclado, mouse e botões e também cantava com voz processada (vocoder) e fumava de vez em quando. Músicas do seu novo álbum "Color Strip" (Warp), como a ótima "My Beats", que encerrou o set numa versão mais acelerada, compuseram boa parte da apresentação. Espécie de nova sensação eletrônica semi-underground, Edgar também é fotógrafo, designer gráfico, pintor e faz roupas. E, é claro, é übercool.

O reggaeman Linton Kwesi Johnson, ex-militante do grupo Panteras Negras, destoou positivamente da programação noturna do evento. Senhor distinto e alinhado, Johnson cantou suas poesias engajadas de quando era mais jovem (ele tem 54) e pregou contra o racismo e a violência contra os negros.

De pijamas azuis de seda e toalhas laranjas no pescoço, Herbert e sua banda --mas sem a prometida cantora Dani Siciliano, mulher do artista-- exibiram músicas do novíssimo álbum "Scale", de envergadura mais pop do que seus trabalhos recentes e que dialoga com seu disco "Bodily Functions" (2001). Foi um show pouco mais do que apenas convencional.

E o DJ Kenny Dope, um clássico, tocou enquanto amanhecia.

Sábado, 17

Foi o dia mais fraco e a melhor noite. Enquanto havia sol, se destacou a banda inglesa The Modified Toy Orchestra. E o nome da banda é exatamente isso: brinquedos "transgênicos", modificados para soar como "instrumentos musicais". A banda é bem humorada, engraçada até. Seus cinco membros se posicionam atrás de uma espécie de bancada, se vestem de paletó e gravata como vendedores e apresentam seus "produtos", no caso os brinquedos. Humor e glitches raramente andam juntos, afinal a IDM é muito séria para brincadeiras, não é? No fim, a banda fez uma versão de "Pocket Calculator", do Kraftwerk.

A noite começou com o grupo Hot Chip, que lançou há pouco o bom álbum "The Warning". Disco punk menos agressiva do que sensível, uma beleza. O hit "Over and Over" encerrou o show bacana dos ingleses.

Depois foi a vez do Goldfrapp no palco principal. A vocalista Allison Goldfrapp, de shorts curtos e cabelos longos, loiros e esvoaçantes, está mais para Britney Spears do que para a imagem de pin-up cool de tempos atrás. A despeito disso, o concerto entretém bastante. Contribuem para isso as boas músicas do álbum "Supernature" e as moças de colant e cabeça de cavalo gigante e prateada que subiram ao palco em "Ride a White Horse", além, obviamente, da voz de Allison.

A boa dupla inglesa The MFA antecedeu a Miss Kittin, que tocou antes dos alemães do Modeselektor. As três apresentaçoes formaram uma seqüência destruidora para dançar no último dia do festival. A dupla Modeselektor, especialmente, fez uma apresentação empolgante com músicas do disco "Hello Mom!", com graves absurdos e batidas inteligentes.

Depois disso, a pista com Ricardo Villalobos e Richie Hawtin estava entupida já pela manhã, e o DJ Disco D tocava pancadão para bem pouca gente.

Neo Zeitgeist




26/01/2007 - 04h34
Os Mutantes reúnem 50 mil no aniversário de SP e chamam Lula de "el grande banana"

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

Cerca de 50 mil pessoas, segundo a Polícia Militar, não pagaram nada para assistir nesta quinta (25) ao memorável retorno aos palcos brasileiros da banda paulistana Os Mutantes, que não se apresentava no país havia quase 30 anos. O evento, que também incluiu shows da Nação Zumbi e de Tom Zé, foi realizado no parque da Independência, em São Paulo, e promovido pela prefeitura para celebrar os 453 anos da cidade.

Com os originais Arnaldo Baptista (teclado), Sérgio Dias (guitarra) e Dinho Leme (bateria), mais a cantora Zélia Duncan, no lugar de Rita Lee, e o baixista Vinícius Junqueira, na posição que foi de Liminha, Os Mutantes trouxeram psicodelia atemporal, uma breve e clara crítica ao presidente Lula, além de rock, muito rock, durante as duas horas de espetáculo. Se a banda, formada no final dos anos 60, estava então à frente do seu tempo, muito graças ao produtor Rogério Duprat, hoje ela é atualíssima.

O show teve um começo triunfal. Zélia, Arnaldo, Sérgio e Dinho desceram as escadarias do Monumento à Independência e caminharam até o palco. Sérgio estava vestido como d. Pedro 1º (aliás, com a roupa e a espada que o imperador usava quando da proclamação da independência do Brasil na imagem imortalizada no quadro de François-René Moreau), Arnaldo usava batina e crucifixo, alusão ao padre José de Anchieta, um dos fundadores de São Paulo, e Zélia, com uma coroa de flores na cabeça e "look de Glória Coelho", trazia um pequeno bolo com a bandeira de SP encravada. E Dinho estava vagamente caracterizado de bandeirante. Fogos explodiram no céu.

O público ocupava todo o parque da Independência até as escadarias do museu do Ipiranga, do lado oposto ao palco. Antes da primeira música, "Don Quixote", Arnaldo tirou o traje religioso e exibiu uma camiseta com a caveira-símbolo do estilista Alexandre Herchcovitch. Foram os primeiros aplausos para ele, que sempre respondia à manifestação com caretas e trejeitos infantis durante a apresentação.

O repertório do show --e a ordem das músicas-- é o mesmo apresentado no Barbican Theatre, em Londres, em maio de 2006, exceto pela inclusão de "Qualquer Bobagem" e a versão em português de músicas cantadas lá em inglês. Esse espetáculo foi o primeiríssimo retorno da banda aos palcos cujo registro foi lançado em CD e DVD em dezembro passado.

Bem mais desenvoltos do que no show britânico, especialmente Zélia e Sérgio, Os Mutantes convidaram Tom Zé, que tinha feito o show anterior da noite, para cantar duas músicas: "Dois Mil e Um", composição dele com Rita Lee, e a citada "Qualquer Bobagem", outra parceria de Tom Zé com o grupo e cuja versão mais conhecida é a da banda mineira Pato Fu.

A voz de Tom Zé, que vestia uma espécie de parangolé com botões de aparelhos eletrônicos e um disco de vinil, só apareceu no quarto final do rock rural-futurista "Dois Mil e Um" devido a problemas no microfone. Em "Qualquer Bobagem", em que cantou com Arnaldo Baptista, tudo parecia desencontrado. Apesar disso, a presença de Tom Zé no palco desse show era uma festa.

Zélia, que não é Rita Lee e não fez papel de "frontwoman", estava à larga na pesada "Top Top" e na sempre linda "Baby", com boas desenvoltura no palco e colocação da sua voz grave. Como disse Arnaldo ao UOL, "Os Mutantes eram muito banana com Rita; com Zélia é mais Led Zeppelin". Veja aqui essa entrevista. "Rock and roooll!", diria Ozzy Osbourne, o equivalente a Arnaldo no espectro "ando meio desligado" do pop.

E o rock veio com tudo em "A Hora e a Vez do Cabelo Nascer (Cabeludo Patriota)", numa ótima versão quase heavy metal, em "Bat Macumba", o samba mais rock do Brasil, e "Minha Menina", com as distorções originais, além de "Top Top" e sua surpreendente fúria.

"Lulacito, el grande banana"
Igualmente à vontade, Sérgio Dias, que demonstra certa megalomania e parece ter se apropriado de vez dos Mutantes --logo ele, que era o "moleque" da formação original e que deu cara progressiva nos últimos anos da banda em meados dos anos 70--, solou diversas vezes com sua incrível guitarra Regulus (construída pelo irmão Cláudio nos anos 60 e que subiu ao palco pela primeira vez justamente no show londrino do ano passado). O som que sai dela é único, com seus botões e pedais pitorescos, que chegam a emular o barulho de um motor de automóvel, como em "Bat Macumba". Ele era o líder e maestro.

E foi também a voz da banda na crítica que fez ao presidente Lula no cha-cha-cha "El Justiciero", na qual o chamou de "Lulacito, el grande banana" (como Rita Lee?), o que provocou aplausos inerciais e algumas vaias, todos abafados pela continuação da música, que também teve citação pouco elogiosa ao presidente da Venezuela, Hugo Chávez. O prefeito de SP, Gilberto Kassab (xingado por parte do público antes de o show começar), ouviu tudo da área vip.
Veja o vídeo de "El Justiciero" ao vivo aqui.

Depois do bis de praxe, com "Bat Macumba" e "Panis et Circensis", a banda voltou novamente ao palco para cantar mais uma vez "Balada do Louco", o que não estava programado ("eu juro que é melhor não ser o normal"...). Foi ovacionada.

Pois bem. Os Mutantes voltaram. Como se o rock psicodélico brasileiro estivesse intacto, porém vivo. Eles farão shows em algumas cidades do país (o próximo é no Rio, dia 3) e no exterior na seqüência. A questão é se essa "volta" vai ser breve e, então, uma aposentadoria geral e irrestrita será o futuro ou se haverá novas e boas canções dos Mutantes do século 21. Se nenhum desses cenários se realizar, "desculpe, babe", o que é memorável hoje pode facilmente se tornar uma piada.

Neo Zeitgeist




08/01/2007 - 08h30
David Bowie completa 60 anos hoje

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

O homem que criou Ziggy Stardust e Aladdin Sane, o "Thin White Duke", o camaleão do rock, o londrino David Robert Jones completa 60 anos de idade nesta segunda (8). David Bowie, que deu "sound and vision" ao rock, entra na sétima década de vida.

Com 26 álbuns de estúdio e dezenas de atuações em filmes (a última delas é o cientista Nikola Tesla, em "O Grande Truque", em cartaz no Brasil), Bowie é multimídia avant la lettre. Não é Ziggy?

Em 1997, lançou "Telling Lies", o primeiro single disponível apenas na Internet, que teve 46 mil downloads, número considerável ainda hoje, quando a www é onipresente. Seu site está no ar há 11 anos, e ele lançou um provedor de acesso à Internet, BowieNet, há oito (nenhum popstar teve um provedor de acesso com seu próprio nome, assim como não há outro com olhos de cores diferentes).

Em 2003, o cantor e compositor apresentou seu então novo álbum, "Reality", num show transmitido ao vivo para salas de cinema em diversas cidades do mundo, como São Paulo e Nova York. E foi possível conversar com ele.

Além disso, como investidor ele é tão bem sucedido quanto nos palcos. Sua fortuna é estimada em US$ 230 milhões. Em 1997, ele lançou os Bowie Bonds, espécie de arrecadação de fundos dos direitos de todos os seus discos lançados até 1990 baseado em royalties futuros dessas 287 músicas. Isso lhe rendeu US$ 55 milhões. E ele é dono de tudo que produziu.

Nesta segunda, Bowie deve comemorar seu aniversário acompanhado apenas da mulher, Iman, da filha Alexandria, 6, e de poucos amigos em Nova York, onde mora. Quando completou 50, Bowie fez um grande concerto no Madison Square Garden, em NY, com David Grohl, Frank Black, Robert Smith, Sonic Youth, Lou Reed e outros convidados no palco.

Mas os fãs devem ganhar alguns presentes. São esperadas, além de um disco inédito, reedições de 17 CDs fac-similares às edições dos álbuns em vinil ainda este ano. Em 1999, sua discografia de "Space Oddity" a "Tin Machine" foi relançada em CD.

Espaço
Em 1969, Bowie lançou "David Bowie" (relançado em 1972 como "Space Oddity"), uma mini-ópera da era espacial no ano em que o homem chegou à Lua. "Estou flutuando de modo muito peculiar, e as estrelas estão muito diferentes hoje", dizia o major Tom direto do espaço na música-título. Major Tom morre e ressurge em "Ashes to Ashes", música de "Scary Monsters" (1980).

Depois de ele perguntar "Is there life on Mars?" ("Hunky Dory", 1971), ele mesmo responde com Ziggy Stardust e as suas Spiders from Mars. Ziggy era um personagem interpretado por Bowie, seu alter ego, o "rockstar definitivo", que vem de Marte para dissipar a banalidade entre os terráqueos. Com bom volume de drogas e promiscuidade, "Ziggy Stardust" (1972) é pedra fundamental do glam rock e um dos mais importantes álbuns da história.

Nesse ano, ele foi capa da extinta revista inglesa "Melody Maker", cuja manchete era "Eu sou gay; sempre fui". Excesso de tudo: drogas, sexo, rock and roll e, é claro, de roupas que apenas Bowie e seus companheiros tiveram coragem de usar em toda a história da humanidade. (A androginia de Bowie, aliás, parece ter voltado agora aos 60, não sem viés de maldade: alguns dizem que ele parece uma velha senhora.)

Ziggy "se aposentou" e entrou em cena Aladdin Sane, outro personagem (a lad insane, um cara insano), cujo álbum homônimo foi lançado em 13 de abril de 1973. Aladdin Sane era uma continuação de Ziggy, agora com Bowie bem mais famoso. "Watch that Man", "The Prettiest Star", "Panic in Detroit", além da faixa-título, colocam esse disco, de capa icônica, ao lado de "Ziggy Stardust" no panteão pop.

Nascia aí também a alcunha de camaleão do rock ("Ch-ch-ch-changes"), termo a que Bowie faz jus até hoje, com uma capacidade de se reinventar, mantendo credibilidade e coerência em sua carreira _ele vai ao ar num episódio do desenho "Bob Esponja" este ano!

A década seguinte viu o Bowie superstar, com os discos "Let's Dance" (1983) e "Tonight" (1984), ambos número 1 em vendas nos EUA. Foi o seu "período Phil Collins". Nos anos 90, em especial de "Outside" (1995), quando experimentou drum´n´bass, até "hours..." (1999), com elementos eletrônicos razoavelmente bem inseridos, sua carreira ganhou frescor digital.

Moda
Aqueles que se reiventam como Bowie, e, em certa medida, como Madonna também, ditam moda. E Bowie é, desde sempre, o performer mais bem vestido de todos os tempos. Cool, elegante, ousado, subversivo, invejável. Uma pequena amostra disso pode ser observada nas capas dos seus discos. As roupas são os elementos visíveis de um saber-se-vestir que não se tem apenas usando-as. É preciso, num sentido amplo, sê-las também.

Por ter experimentado, até o começo dos anos 80, excesso de cocaína, além de heroína especialmente no final da década de 70, no chamado "Anos Berlim" (dos álbuns "Low", "Heroes" e "Lodger"), é quase uma façanha que Bowie tenha chegado aos 60 com bom aspecto e saúde relativamente boa (ele passou por uma cirurgia cardíaca de emergência em 2004 e desde então não faz mais shows, o que deve ocorrer este ano novamente).

E também é uma conquista louvável que os seus dois últimos álbuns, "Reality" (2003) e "Heathen" (2002), sejam bons discos. Depois da fase Tin Machine, no final dos anos 80, a carreira de Bowie parecia ter chegado a um fim lamentável. Qual nada. TV on the Radio, Arcade Fire e Deerhoof estão entre as bandas com as quais colaborou recentemente.

Parabéns, mister Bowie, o espírito do tempo está sempre ao seu lado.

Neo Zeitgeist




15/03/2007 - 13h12
Morto há nove anos, Tim Maia reclamou do som até o último show

MARCELO NEGROMONTE
Editor de UOL Música

No dia 8 de março de 1998, um domingo, Tim Maia subiu pela última vez ao palco. O cantor morreu uma semana depois, no dia 15, há nove anos.

O último show do Síndico seria um espetáculo acústico gravado pelo canal pago Multishow no Teatro Municipal de Niterói, no Rio. Mas esse foi um show que não aconteceu, afinal duas músicas, sendo só uma delas com a presença do cantor, não configuram um show propriamente.

Famoso pelo não comparecimento a inúmeros espetáculos e pelos atrasos, Tim Maia demorou a aparecer também no último show de sua vida.

O evento era especial. Na platéia lotada estavam convidados, artistas, celebridades, atores, músicos e jornalistas. Era a reabertura do pequeno e charmoso Teatro Muncipal de Niterói, que havia passado por uma reforma e cheirava a tinta fresca.

Mais de uma hora depois do início programado, a banda Vitória Régia, que acompanhava o músico havia uns 20 anos, finalmente deu início ao show apenas com os backing vocals. Cadê o Síndico? Nada.

Na segunda música, "Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar)", aplausos. Eis o carioca da Tijuca, 55 anos, imenso, terno azul claro, camisa branca, suor no rosto.

Reclamou do "ré menor" e intrerrompeu a música --outra característica marcante do cantor era a eterna insatisfação com os técnicos de som a quem pedia sempre o "retorno" e mandava tirar o "reverb" ou qualquer outra coisa que o incomodasse.

A música começou novamente. "Vou pedir...", "Vou pedir...", cantou Tim, e a platéia completava os versos que todo mundo conhece. Com sinais claros de que daquele jeito não dava mais para continuar, Tim Maia deixou o palco sob risadas do público, que imaginava se tratar de mais um episódio temperamental do cantor.

Não era possível, ele iria dar o cano num especial de TV ao qual ele havia comparecido? A banda terminou a música pouco depois da saída do cantor.

"A semana inteira fiquei te esperando, pra te ver sorrindo, pra te ver cantando", cantou a platéia com palmas, pedido claro para que Tim retornasse. Não houve retorno --cadê o retorno?

"Tim Maia não está passando bem. Tem algum médico na platéia?", foi o que saiu do sistema de som do teatro para perplexidade geral. Até havia um, Drauzio Varella, acompanhado de sua mulher, a atriz Regina Braga.

A partir daí, foi o caos. Vários minutos depois, chegou a ambulância do Corpo de Bombeiros, que entrou no átrio do teatro, ocupado agora pelos convidados que haviam saído da sala de espetáculo.

Amparado dos dois lados e com máscara de oxigênio, o hipertenso Tim Maia subiu na ambulância com pés trêmulos. Fotógrafos, cinegrafistas e curiosos dificultavam o trabalho de resgate do rei do soul brasileiro.

Às 23h, o cantor foi encaminhado ao hospital Antônio Pedro, em Niterói, que parecia mais uma delegacia, com grades na entrada a impedir a entrada de quem fosse. Aflita, só se via a secretária particular do cantor, Adriana Silva, ao celular.

Uma semana depois, Sebastião Rodrigues Maia morria no mesmo hospital de infecção generalizada em conseqüência de um edema pulmonar, seguido de parada respiratória.

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